A Corte Suprema de Belíndia

Em 1974, o economista Edmar Bacha apelidou nosso país de Belíndia! Isso porque seríamos uma pequenina Bélgica, rica e multimilionária, cercada por todos os lados pela enorme Índia, repleta de pobreza e de miséria.

Por esse caminho, não há dúvida de que nossa Corte Suprema é sediada em terras brasibelgas, onde a fartura de dinheiro (do povo) não faz corar ninguém que gosta (e quem não gosta) de comer e beber o que há de melhor e de mais caro no mercado.

Lá na parte belga de nosso país, os ministros do STF desejam ter à sua disposição um cardápio que inclui bacalhoada a Gomes de Sá, moquecas, desde que capixaba ou baiana, codornas, carneiros e vitelas assadas, além de arroz com pato, medalhões de filé e, claro, medalhões de lagosta servidos com molho de manteiga queimada, tudo isso regado a vinhos vencedores de pelo menos quatro prêmios internacionais, envelhecidos, obviamente, em barris de carvalho francês ou americano por um período mínimo de doze meses.

Já na parte indiana de nosso país, prevalece o cardápio popular do arroz com feijão, do bife de carne de segunda ou da canja de galinha (etc.), acompanhados de cachaça e cerveja sem puro malte, o qual segue atendendo aos desejos de uma população que, acostumada com as dificuldades de seu dia a dia, busca na simplicidade da vida a única maneira de não morrer de fome.

Pessoalmente, detesto lagosta e codornas, não chego nem perto de arroz com pato, mas confesso ser fanático por moqueca capixaba e carneiro assado, isso, certamente, se tiver dinheiro para pagar tais caprichos. Não tendo, sigo degustando com todo prazer um bife de alcatra com um belo ovo frito, uma canja de galinha com a pimenta adequada, sem falar na cachaça para abrir o apetite, até porque me considero, com todo orgulho, um brasindiano.

lagosta

Essa a diferença, qual seja: nós brasindianos podemos comer o que há de bom e melhor, desde que o dinheiro para isso saia diretamente de nossos bolsos; já os brasibelgas de nossa Suprema Corte e de outros tantos entes estatais, nem isso, uma vez que comem e bebem o que há de melhor sem colocar a mão no bolso (ou na bolsa), considerando que tudo é pago com recursos públicos que, todos sabemos, é formado pelo dinheiro meu, seu e de todos os demais brasindianos.

Para ser justo, esses arroubos alimentares não se limitam à Corte Suprema de Belíndia, pois são reproduzidos em vários feudos brasibelgas espalhados em nosso território, como no Tribunal de Justiça do brasindiano Estado do Maranhão, onde em fevereiro deste ano o auxílio-alimentação dos juízes estatuais saltou de míseros R$ 726 para incríveis R$ 3.500 mensais.

Aqui, com o devido respeito, não de se pode falar em auxílio-alimentação, mas com certeza em auxílio-banquete, razão pela qual sugiro um esforço para evitar o incremento da obesidade daqueles magistrados porque, do contrário, chegará o dia em que cadeiras, poltronas e portas dos fóruns maranhenses terão de ser substituídos para outros mais robustos e largos, sob pena do expediente forense paralisar por completo.

Aliás, o que falta aos nossos brasibelgas é justamente a simplicidade que os brasindianos tanto se apegam para sobreviver em meio ao caos político-institucional que vem, desde os tempos de Cabral, continuamente mutilando qualquer esperança de avanços civilizatórios em nossa Belíndia.

Gosto é gosto, eu sei, mas não troco, nem se for de graça, um arroz com suã por um arroz com pato!

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