A falta de gestão ambiental das águas de BH

Os lagos e represas da região metropolitana de Belo Horizonte inundam uma superfície de pelo menos 31 quilômetros quadrados e acumulam um volume de água não inferior a 272,5 milhões de metros cúbicos. Não é muito para matar a sede de uma das maiores cidades do Brasil.

Para se ter uma idéia, essa área representa apenas 10% do tamanho da Baía da Guanabara. O volume de água acumulado em todas as represas e lagos naturais da nossa região metropolitana não chega a 300 milhões de metros cúbicos (Tabela abaixo).

Para se ter uma idéia do que esse volume significa, basta dizer que o reservatório de Furnas, um dos maiores do sudeste do Brasil, acumula sozinho de 23 bilhões de metros cúbicos de água, ou seja, 74 vezes mais do que toda a água armazenada nos lagos e represas da Grande BH.

A conclusão óbvia é a seguinte: não temos muita água para beber e o melhor a fazer é cuidar melhor de todas elas. Não importa o seu tamanho e estado de conservação. É prudente salvar a Pampulha. Nós temos igualmente que cuidar da Represa (Lagoa) do Nado, de Vargem das Flores, de Ibirité etc.

Tabela – Represas artificiais e lagos naturais na Região Metropolitana de Belo Horizonte

Tabela2

Dediquei boa parte de minha carreira de pesquisador na UFMG estudando as represas e os lagos da região metropolitana de BH. Todos os corpos de água dessa região, sem exceção, sofrem graves problemas ambientais. A tabela acima nos dá uma tênue idéia das ameaças que rondam cada lago ou represa da Grande BH.

A grande verdade a ser dita é a seguinte: sabemos construir represas, mas não sabemos como conservá-las. Outra conclusão: os lagos estavam aí quando os colonizadores chagaram. Tudo o que fizemos foi degradar rapidamente também essas reservas.

Deixamos o crescimento urbano inviabilizar a captação de água na Pampulha. Fizemos obras de alteração de nível da água em Lagoa Santa que levaram a uma irreversível piora dessas águas que além de cristalinas que já foram consideradas curandeiras e até exportadas pelos colonos para Lisboa!

A captação excessiva de água subterrânea vem causando uma perda nítida do volume acumulado na Lagoa dos Ingleses. A represa de Ibirité sofre com a entrada de efluentes oriundos de uma refinaria de petróleo, em volumes muito além de sua capacidade de suporte.

Deixamos os esgotos de Contagem e Betim, assim como rejeitos de mineração e agrotóxicos comprometerem seriamente a Represa da Vargem das Flores. Mineradoras também causam impactos severos na Represa de Serra Azul que, assim como a Represa do Manso, também sofre com a entrada de esgotos domésticos não tratados.

Todos os erros acima podem ser resumidos assim: temos uma falta crônica de gestão ambiental em nossas represas. A tragédia de Mariana não deixa dúvidas a esse respeito. Os reservatórios são vistos como obras de engenharia e não como ecossistemas que necessitam, para sua conservação, de aplicação de conhecimentos (complexos) de ecologia de ecossistemas. Os nossos gestores públicos, ao se depararem com um problema ecológico, acabam por optar por obras de engenharia que muitas vezes pioram ainda mais o problema.

Outro dogma comum entre os gestores ambientais de nossas represas consiste na idéia medieval de que diminuir ou impedir o contato humano com um dado lago ou reservatório pode ajudar a salvá-lo. Na tabela acima, não há nenhum indício de que contato humano direto causa impactos ambientais importantes em uma represa.

O lazer, tal como a pesca desportiva, ciclismo na orla, a natação ou prática de esportes náuticos além de ajudar a preservar ainda gera empregos e contribui para o desenvolvimento sustentável. É evidente que o contato humano com águas urbanas deve ser muito bem regulamentado e controlado, assim como ocorre nos países mais desenvolvidos.

Em contraste com a má qualidade de água e com a elevada frequência de acidentes ambientais nas represas de BH e de Minas Gerais, vemos um florescimento de diversas autarquias, repartições, fundações que, a todo momento, são criadas pelos governantes para cuidarem de nossas águas. É muita gente sendo (bem) paga para cuidar dessas águas… A realidade, no entanto, está aí para mostrar que tem muita incompetência na gestão ambiental das águas de Minas.

Não tenho grandes esperanças de que os novos prefeitos e vereadores eleitos nas dezenas de municípios da Grande BH sejam sábios o suficiente para mudarem esse quadro. Quem pode mudar é você – cidadão informado e consciente – que cada vez mais vai exigir uma melhor gestão ambiental de nossas águas. Elas são poucas e estão doentes!

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