A falta de gestão ambiental das águas de Minas (Parte II)

Ao contrário da escassez de águas na região metropolitana de Belo Horizonte, as águas de Minas Gerais são muitas, quase infinitas. Já foi dito até que o estado seria a “caixa d’água” do sudeste brasileiro. E não sem razão. Das montanhas de Minas partem rios caudalosos que formam as principais bacias hidrográficas do sudeste, nordeste e sul brasileiros.

Os rios mineiros guiaram os primeiros bandeirantes pelo estado adentro. Em seguida, essas águas também possibilitaram aos colonos usufruir de várias riquezas: matas exuberantes ao longo das margens, vázeas extremamente férteis, ouro em seus depósitos aluvionais. Ultimamente, os rios se transformaram em grandes represas que nos fornecem a maior parte da energia elétrica produzida no estado, uma energia que tudo move.

Em suma, os rios de Minas são, sem dúvida alguma, uma das maiores – senão a maior – de suas riquezas naturais. Apesar de toda essa opulência, é fato que cuidamos muito mal dessas águas.

Hoje, desejo chamar a atenção para os grandes reservatórios de Minas Gerais. Na tabela abaixo, eu selecionei apenas algumas das maiores represas do estado. Eu tive a rara oportunidade de ter trabalhado durante vários anos em todos esses grandes mares interiores. Conheço muito bem essas águas.

A primeira coisa que temos que observar é a área alagada por essas represas. Os sete maiores reservatórios de Minas cobrem uma superfície de 5.563 km². Para ser ter uma idéia do que significa esse número, basta mencionar que esse valor equivale a 14,6 vezes a área ocupada pela Baía de Guanabara, uma das maiores baías do litoral brasileiro.

Essas represas acumulam um volume de 103,26 km³. Esse é um valor estratosférico e equivale a TODA chuva que cai em TODOS os continentes da Terra em um ano! Portanto, não resta dúvida alguma de que Minas tem mesmo vários oceanos em seu território!

Tabela – Principais reservatórios de Minas Gerais e os principais impactos humanos que eles vêm sofrendo

Tabela RMPC

A tabela acima também alerta para o fato de que todos esses ambientes sofrem com diversos impactos humanos. Eu já disse e repito. Sabemos construir represas, mas não temos uma ideia precisa de como devemos fazer para conservar toda essa riqueza.

Posso afirmar – sem medo de errar – que todos os sete exemplos acima são de represas que estão seriamente ameaçadas pelo homem. Imensos projetos de irrigação drenam a água em excesso. Em seguida, a devolvem com resíduos perigosos de agrotóxicos e nutrientes. Esses mesmos elementos que vêm causando a eutrofização e a piora contínua da qualidade da água que observamos em muitas de nossas pesquisas.

As margens dessas represas estão quase que totalmente desprovidas de matas e vegetação ciliar. Há focos de erosão por toda parte. Em consequência, o assoreamento já ameaça vários braços de muitas dessas represas. Inúmeros projetos de aquicultura posicionam centenas de tanques redes em locais inadequados.

Nos inúmeros condomínios existentes, muitas obras são feitas sem controle apropriado e contribuem para degradar ainda mais as águas dessas represas. Some-se a essas ameaças, a expansão urbana e industrial e a atividade pecuária sem limites, tudo isso sem o necessário controle ambiental. Inúmeros municípios jogam os seus esgotos nesses lagos sem qualquer tipo de tratamento. O excesso do pastoreio do gado causa o aparecimento de voçorocas de proporções lunares na paisagem.

Nesse ponto cabe a pergunta: por que deixamos a situação chegar a esse ponto crítico? Uma das razões que podemos citar é a falta crônica de pessoal especializado para cuidar da gestão de reservatórios no estado de Minas Gerais. Os programas de monitoramento são muito acanhados. Apenas em Furnas e Três Marias existem centros de pesquisa dedicados ao estudo desses lagos e, mesmo assim, esses centros sofrem com crônica falta de recursos.

Por outro lado, os gestores públicos do estado insistem em ver essas grandes represas prioritariamente apenas como “caixas de água”, reservas estratégicas para a produção de energia. E os prefeitos das dezenas de municípios lindeiros ou não têm interesse ou não dispõem de competência técnica instalada em seus respectivos municípios para enfrentar o desafio de gerir esses verdadeiros mares interiores. E não podemos deixar de mencionar a falta de senso de sustentabilidade dos empresários que tocam a grande maioria das cadeias produtivas associadas aos usos múltiplos dos reservatórios.

Tivemos uma grande tragédia no rio Doce. Tragédia maior ainda é imaginar que o que aconteceu ali foi um acidente e que não há relação entre o rompimento da barragem de Fundão e o descaso que afeta nossas grandes represas. Acho que está na hora da sociedade mudar e passar a entender que meio ambiente não é só um conceito vago que nada tem a ver com a vida que levamos. Deixar os lagos de Minas como estão é abrir o caminho para outras tragédias no futuro.

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