A Pampulha e o gato

Estamos às portas do carnaval de 2017. Notei que falta um bloco de foliões na turba que vai desfilar pelas ruas de BH. O bloco que falta poderia ter um dos nomes a seguir: “Os aflitos da Pampulha” ou “Marola Verde” ou ainda “Capivaras fora da Toca”. Enfim, não sou muito bom nesse negócio de carnaval, mas estou dentro da folia!

O brasileiro tem mania de satirizar todas as mazelas do seu cotidiano e as expõe, com muito humor, na avenida durante os dias da folia. É certo que o descaso que a Pampulha vem recebendo – desde os tempos jurássicos – bem que merecia mais atenção dos nossos foliões. Afinal, é incrível que, depois dos milhões gastos, das milhares de horas investidas em discursos pelos nossos políticos – de todas as cores – ainda tenhamos que conviver com o triste espetáculo das águas poluídas e fétidas da represa da Pampulha.

O dilema da Pampulha, se vai ser despoluída ou não, é semelhante a um experimento feito pelo famoso físico austríaco Rewin Schrödinger que resume um paradoxo da física quântica. Ele bolou um experimento colocando um gato em uma gaiola hermética contendo radiação e veneno. O gato está vivo mas podemos contar com ele já morto…

Está a Pampulha viva ou já podemos incluir o caso como mais um atestado da incapacidade do sistema de conservação da natureza? O que está faltando para se completar a obra de despoluição da Pampulha? Ou o que falta para transformarmos a Pampulha em um grande aterro?

Quando abrimos a lente de nossas mentes para a realidade em que vivemos hoje, no Brasil, notamos que o experimento do físico austríaco é didático e pode ser aplicado muito mais além da Pampulha e do sistema brasileiro de gestão de recursos hídricos. O Brasil, assim como o gato de Shrödinger, está em uma gaiola hermética com apenas dois frascos para abrir: o da corrupção e o da incompetência.

Estive, recentemente, em Israel tomando parte de uma missão técnico-científica cujo objetivo final é o de atrair os gestores públicos brasileiros, ligados aos recursos hídricos, para uma outra realidade. Uma realidade que deu certo quando se trata de gestão das águas.

Desde então, estamos planejando ações que tornem acessíveis aos brasileiros as tecnologias mais avançadas e também criando possibilidades de aprimoramento de recursos humanos ligados à gestão e governança das águas. Entretanto, muitas vezes, pergunto-me se é um esforço válido.

O que vemos hoje no país são políticos distantes da realidade, ferrovias inacabadas, presídios furados, escolas abandonadas e hospitais sucateados. Sinceramente, para sair desse buraco negro, nem mesmo a Terra Santa. Só mesmo a Física Quântica!

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