A Pampulha e os esgotos

Acabo de dar uma volta pelas margens da lagoa. É domingo, o sol brilha e nada como passear na Pampulha! Eu e muitos outros belohorizontinos. Todos desfrutando dessas belas manhãs azuis com aquele friozinho gostoso que não incomoda…

Vou caminhando e é fácil perceber que a qualidade da água melhorou. Devemos reconhecer que o trabalho da PBH tem levado a resultados positivos na recuperação da lagoa. Muitas aves, muito verde e tudo parece perfeito. Até o tradicional odor de águas fétidas, tão comum na Pampulha, diminui bastante nesses dias mais frios do nosso outono.

Entretanto, infelizmente eu sou um Limnólogo (aquele que estuda a ecologia das águas doces) e logo percebo que ainda chega muito esgoto à represa. Aliás, nem precisa de ser especialista. Basta passar pelo córrego Ressaca ou Sarandi e constatar por si próprio a enorme poluição por esgotos que chegam à represa.

Eu tenho participado, ao longo dos mais de trinta anos que dedico-me à causa da Pampulha, de dezenas de reuniões técnicas, de comissões dos mais diferentes níveis e com as mais variadas autoridades, cientistas, técnicos, representantes da sociedade, pessoas interessadas, bons e maus políticos, principalmente aqueles oportunistas, que se aproveitam da Pampulha para angariar votos.

Hoje, gostaria de falar um pouco sobre a concessionária de serviços de saneamento que recebeu a outorga dos municípios de BH e Contagem para distribuir água à população, coletar e tratar os esgotos desses municípios. Quando se fala da presença de esgotos na Pampulha, a Copasa tem a maior lista de desculpas na ponta da língua: são infindáveis alegações, fatores, limitações, problemas a resolver etc., etc.  A lista de desculpas é maior do que a Bíblia!

Posso afirmar, sem medo de errar, que a Copasa dispõe de técnicos extremamente competentes , que trabalham dentro do mais alto nível ético. É certo que tenham todo o conhecimento necessário para resolver o problema dos esgotos na Pampulha da noite para o dia. E porque não resolvem esse drama que se arrasta por décadas?

O problema da falta de resultados na questão dos esgotos na Pampulha não está na falta de competência técnica. O problema está na forma de gestão e na cultura corporativa dessa e muitas outras concessionárias de saneamento Brasil afora. Essas empresas são muito afetadas por uma burocracia asfixiante, são resistentes às inovações tecnológicas, principalmente aquelas que vêm de fora do país.

E, o mais grave, elas trabalham com um conjunto limitado de prestadores de serviços, as empreiteiras que fazem de tudo, um pouco e, muitas vezes, mal feito. E não podemos nos esquecer de um mal que vem afetando todas as estatais no Brasil que é o seu constante loteamento político.

Em termos de burocracia, essas companhias ficam muito limitadas para comprar equipamentos e contratar serviços, pois são obrigadas a fazer licitações. Quem no Brasil ainda acredita nessas licitações, depois das delações que vieram a público na operação lava-jato?

E, aqui no Brasil, temos o péssimo hábito , em princípio, de desconfiar dos nossos gestores públicos. Há “trocentos” regulamentos para fiscalizar as compras (como se fossem eficientes…), mas não há a cultura de se medir os resultados. Ou seja, o gestor público deve comprar e contratar tudo “direitinho”, conforme manda o figurino, mas não há cobrança pelo resultado.

Em suma, depois de vencida a licitação, seja o que Deus quiser. Não há mensuração da eficiência. É exatamente por isso que a Pampulha ainda tem os esgotos “in natura” chegando em grandes quantidades…

Muitos haverão de perguntar: mas, se fosse tão fácil, por que não foi feito? O mundo está cheio de exemplos de despoluição de lagos muito maiores do que a Pampulha. Existem todo tipo de exemplos, mas, infelizmente, muitos deles estão fora do Brasil.

Qualquer pessoa, mesmo não sendo especialista, que tiver a oportunidade de visitar concessionárias de saneamento mundo afora, como eu fiz em Israel, poderá constatar que temos que evoluir muito aqui no Brasil.

Por que será que a prefeitura de Los Angeles, uma cidade que vive sob uma grave crise hídrica, decidiu comprar a tecnologia de mensuração da água dos israelenses?

Ou, por que será que a China, um gigante em termos de ciência e tecnologia, também importa tecnologia hídrica daquele país? A resposta é simples: não é necessariamente a solução caseira que trará o resultado pretendido e com a eficiência necessária.

Nem sempre a solução mais barata é aquela melhor, que vai gerar mais economia para a empresa no longo prazo, e, consequentemente, na conta de água dos seus consumidores.

Em termos de gestão ambiental dos recursos hídricos, o Brasil ficou para trás. E muito. Acreditávamos que esse era o país das águas infinitas. Todos os livros do ensino médio ainda ensinam nossos alunos que temos 12% da água doce do planeta.

Baseado nessa cifra (que é muito discutível, por sinal), ninguém nesse país, durante muitos anos, acreditava que a água seria um recurso limtante para o nosso progresso. É chegada a hora de reconhecer a verdade e cobrar resultados!

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