A Pampulha, o lixo e a educação

Todo ano a mesma cena se repete. Com as primeiras chuvas, a Lagoa da Pampulha recebe dezenas de toneladas de lixo. São milhares de garrafas pet, frascos de produtos de higiene pessoal, toneladas de isopor e por aí vai. É um triste espetáculo que causa muitos transtornos não somente a quem visita a orla da lagoa, mas também a quem mora por perto da lagoa. Afinal, junto com o lixo, temos inúmeras pragas urbanas, tais como insetos indesejáveis, roedores etc. Os urubus fazem uma festa com as inúmeras carcaças de animais domésticos que também fazem parte desse sombrio festival de dejetos que adorna a lagoa todo Natal.

Eu fico perplexo ao constatar que, dentre os projetos previstos de recuperação da represa da Pampulha, não constem ações específicas voltadas à questão do lixo. Sabemos que existe uma verdadeira força-tarefa, composta por dezenas de garis, que literalmente varrem a lagoa todos os dias retirando esse entulho. Não é a eles que me refiro.

Podemos imaginar uma cena muito diferente. Imagine você, caro leitor, se não chegasse lixo algum pelos córregos que adentram a Pampulha. Em dias de jogos, no Mineirão, os torcedores não deixassem um enorme rastro de lixo após a sua passagem pelos arredores do estádio. Como seria bom, se um véu de cidadania e respeito ao bem-público baixasse na cidade e cada cidadão fizesse a sua parte e não esperasse tudo do governo. Isso é possível? Claro que é. E você provavelmente já sabe na ponta da língua a resposta: mais educação. Você está certo, caro leitor. Mais educação sim, mas que tipo de educação?

Vamos, considerar, por exemplo, o ensino superior. Muita gente nesse país ainda acredita que a função básica de uma universidade é a de ser uma usina de diplomas. Não é bem assim. Hoje, as universidades são decisivas na formação do cidadão. Lá, ele aprende não só conteúdo. Ele será continuamente induzido a discutir, associar o novo conhecimento à realidade em que vive. A universidade é o local ideal para o desenvolvimento de uma capacidade de autocrítica. Provavelmente, um aluno de um curso de graduação, em uma boa universidade, irá frequentar eventos científicos e acadêmicos. Assim ele irá participar, pela primeira vez na sua vida, do processo desafiador da geração e transmissão de novos conhecimentos. Só que os brasileiros estão muito longe das universidades. Pela OECD (Organismo Internacional de Cooperação e Desenvolvimento), o Brasil exibe uma das menores taxas de escolaridade superior para jovens de 20 a 24 anos do mundo!

Voltando à questão do lixo na Pampulha. Nem em 20 anos ou 30 teremos uma taxa de escolaridade superior que realmente permita uma ampla mudança de comportamentos e atitudes – de modo consciente e sustentável – na sociedade brasileira. O que fazer, então? A Unesco, ciente do problema (que é mundial), vem propondo o conceito de educação popular. Trata-se de uma educação não formal que atinge determinados tipos de público e que tem objetivos muito claros e específicos. Por exemplo, um projeto de educação popular a ser implantando em toda a bacia da Pampulha, envolvendo diversos segmentos visando à mitigar ou mesmo eliminar o lixo na represa.

Minas Gerais já foi pioneira nessa questão ao fundar o Centro HidroEX com a chancela da Unesco. Infelizmente, a corrupção e o uso indevido da instituição como instrumento de sustentação político-partidária acabou levando o atual governo a fechar a promissora instituição. De toda forma, é preciso – com urgência – repensar e reinventar a educação popular em Minas no Brasil. Ficar como está não dá mais.

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