Aniversário de tristeza

Tim Filho, de Governador Valadares

Sempre que estou à beira do rio é inevitável lembrar da minha infância. O Rio Doce, o Pico do Ibituruna e o sol brilhando num céu inexplicavelmente azul são as marcas de Governador Valadares, a minha cidade, desde os meus tempos de menino. Convivo com este cenário há mais de meio século e só eu sei medir o tamanho do sentimento que une o meu olhar e as coisas belas daqui. Coisas belas para os olhos cheios de poesia, de alegria e tristeza.

Lembro-me de que quando eu era criança (e como qualquer criança), via as coisas bem maiores que elas são. É natural. São as escalas de tamanho. Uma criança debaixo de uma porta está sob algo que se assemelha a um portal. Debruçada em uma janela, também. Casas, morros, enfim, tudo é grandioso. Vivi em casas pequenas que pareciam imensas, com portas e janelas gigantescas. Lembro de noites de luar com “superluas” fazendo cintilar as águas do Rio Doce, ali no bairro São Pedro, onde eu nasci.

Nessas noites, invariavelmente, nossos vizinhos, Seo Cléber e Dona Fia, passavam alegres com suas tarrafas. À beira do rio, os dois embarcavam em uma canoa que deslizava nas águas do rio. Chuá! As tarrafas mergulhavam nas águas e buscavam os peixes lá no fundo. Quando o casal de pescadores voltava, trazia muitos peixes. Grande parte era de cascudinhos. Eram tantos, que muitos iam parar lá em casa, dentro do tanque de lavar roupas.

Minha mãe, com aquela paciência divina, limpava os cascudinhos e tirava o couro de cada um, com habilidade e precisão. No outro dia, tínhamos a moqueca de “Cascudinho do Rio Doce” no almoço. Sabor sem igual. O melhor peixe pra moqueca.

– Cuidado com o “espinho”, dizia a minha mãe, enquanto a gente almoçava.

Há um ano eu passei na margem esquerda do rio. A escala de tamanho já não se aplicava. A água não cintilava mais. Era laranja escuro e exalava um cheiro forte. Os cascudinhos… Bem, os cascudinhos iam se decompondo pela margem do rio. A escala de tamanho já não se aplicava, nem à poesia, nem aos elementos cenográficos. Nem se aplicava ao tamanho da tragédia que levou o nosso rio, porque essa tragédia, o maior crime ambiental acontecido no Brasil, não pode ser medida. É incomensurável!

Rio Doce, em Governador Valadares, com o pico do Ibituruna ao fundo
Rio Doce, em Governador Valadares, com o pico do Ibituruna ao fundo

Hoje, um ano depois, voltei à margem do rio. O cheiro forte de peixes em decomposição não se faz presente. Os peixes morreram quase todos, apenas alguns, contaminados pela água cheia de dejetos de mineração e esgoto, teimam em sobreviver. Não queria voltar à margem do rio e ficar lembrando dos cascudinhos, das escalas de tamanho e as suas relações com as minhas lembranças de tempos idos. Mas eu voltei pra apoiar a luta dos irmãos e irmãs da Associação Valadarense de Defesa do Meio Ambiente (AVADMA), que protestaram contra o descaso das mineradoras que assassinaram o rio e toda a vida que existia dentro dele.

Voltei em silêncio. Tudo que eu queria dizer já estava escrito nas faixas deixadas na margem do rio: “Chega de humilhação e conivência. Samarco, Vale e BHP, mais respeito com a população”… “A Vale prometeu captação alternativa em 21 dias, onde está?” …“O povo valadarense exigente captação alternativa de água, urgente”… “Não queremos beber lama tratada”.

Há um ano estamos à espera de uma solução, da captação alternativa de água que seria feita em um rio afluente do Rio Doce (Suaçuí Pequeno, Rio Corrente, Suaçuí Grande). Os anos vão se passando e o risco das obrigações das mineradoras conosco caírem no esquecimento é grande. E nos aterroriza ainda mais são as previsões dos ambientalistas, de que tem mais lama represada ao longo do leito rio e que pode descer a qualquer momento. E a mais assustadora de todas: a possibilidade real de novas barragens de rejeito se romperem.

O triste aniversário de um crime ambiental sem precedentes na história do Brasil me traz as lembranças mais diversas. De uma lua imensa iluminando o Rio Doce nos meus tempos de criança, de um sol brilhando num céu inexplicavelmente azul, de águas velozes correndo para o mar no sopé da Ibituruna, dos cascudinhos, lambaris, pacumãs, dourados, carás e dezenas de outras espécies que foram sepultados para sempre sob a lama de dejetos de mineração, em um estado chamado Minas Gerais.

(*) O valadarense Tim Filho é jornalista e produtor cultural

Protesto à margem do Rio Doce com Ibituruna ao fundo: Valadares pede socorro
Protesto à margem do Rio Doce com Ibituruna ao fundo: Valadares pede socorro
468 ad