As carpas e a nata

Qual é a relação entre o programa de recuperação da água em curso há seis meses na Lagoa da Pampulha e a mortandade de peixes verificada nela nos últimos dias, notadamente desde domingo (18)? Em nota oficial passada à imprensa, a prefeitura de Belo Horizonte sustenta que uma coisa nada tem a ver com a outra.

“O aparecimento de alguns peixes mortos é uma ocorrência natural da dinâmica do lago, sem relação com o tratamento que está sendo realizado para a recuperação da qualidade da água. Tais causas podem estar ligadas à influência da mudança brusca de temperatura no movimento das águas da Lagoa, a qual provoca a ascensão da água do fundo, pobre em oxigênio, para a superfície, sendo este um fenômeno natural chamado de inversão térmica, o que, ocasionalmente, pode gerar eventos como este, sendo este acontecimento comum de ocorrer em lagos tropicais. A recuperação da qualidade das águas da Lagoa tende a melhorar os níveis de oxigenação da mesma”, diz o comunicado oficial.

Ricardo Motta, biólogo com pós-doutorado em limnologia e colunista do Viva Pampulha, concorda, em parte, com a nota da prefeitura, e afirma que, de fato, a mortandade de peixes é um fenômeno crônico e histórico na lagoa.

“Os peixes aqui vivem numa corda bamba, porque a lagoa só tem oxigênio nos dois primeiros metros próximos da superfície. Quando ocorre qualquer mudança climática, esse colchão de oxigênio é desfeito, porque a lagoa tem muita bactéria, e as bactérias consomem oxigênio. Então, é um equilíbrio muito instável. Faltou oxigênio, o peixe vai morrer.”

Por outro lado, Ricardo Motta chama a atenção para um detalhe curioso. A mortandade  observada nos últimos dias atingiu basicamente as carpas, e não as demais espécies de peixes.

“Está faltando oxigênio, mas a prefeitura deveria fazer um exame histopatológico e parasitário para confirmar ausência de patologias. É estranho observar que, aparentemente, estão morrendo só peixes da mesma espécie. A falta de oxigênio afeta todas as espécies, e não apenas uma. É bom investigar isso”, recomenda o biólogo e colunista do Viva Pampulha.

A Polícia do Meio Ambiente de Minas Gerais recebeu uma denúncia informal sobre a mortandade de peixes e enviou no meio da semana uma viatura para uma ronda em torno da lagoa. Em princípio, não constatou anormalidades, mas ainda assim decidiu monitorar diariamente, agora, a situação.

“Vamos fazer essa observação diária, com uma viatura circulando a lagoa. Se encontrarmos peixes mortos, vamos coletar e mandar para exames (em um laboratório da UFMG). Nosso comando está preocupado porque a lagoa está passando por um processo de limpeza e não sabemos se isso pode estar provocando alguma reação na água”, disse o Tenente Rodrigues, comandante do 1º Pelotão da Companhia de Polícia de Meio Ambiente de Minas Gerais.

Aparentemente, a mortandade atingiu apenas as carpas
Aparentemente, a mortandade atingiu apenas as carpas

Informações vagas

A prefeitura realizou em junho passado a terceira campanha de amostragem para avaliar o andamento dos trabalhos de recuperação da água, iniciados em março deste ano. A informação oficial é de que os resultados são mais que satisfatórios.

“Mantivemos os bons indicadores alcançados na segunda amostragem e, agora, avançamos mais. Conseguimos uma redução de 67,6% do índice de fósforo total e de 41,4% de cianobactérias, resultado superior, em ambos os casos, aos 30% previstos para esta etapa dos trabalhos”, declarou, no último balanço, o gerente de Gestão de Águas Urbanas da Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura, Ricardo Aroeira.

Para o biólogo Ricardo Motta, as informações divulgadas pela prefeitura até o momento são vagas. Ele cobra mais transparência sobre os resultados do programa e números mais detalhados.

“As divulgações não trazem dados quantitativos. Quando eles falam em percentuais de redução de fósforo e clorofila, a que valor médio se referem? Esses dois valores sofrem amplas oscilações sazonais. A redução deve ser ponderada levando-se em consideração essa característica”, observa ele.

Floração de algas e formação de "nata verde" na superfície são sinais de entrada de esgoto na Lagoa da Pampulha
Floração de algas e formação de "nata verde" na superfície são sinais de entrada de esgoto na Lagoa da Pampulha

De acordo com a prefeitura, três dos cinco parâmetros considerados pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) para o enquadramento da água na chamada classe 3 foram atingidos já na segunda campanha de amostragem, em maio: DBO (indicador de presença de matéria orgânica), coliformes termotolerantes (indicador de presença de micro-organismos patogênicos) e clorofila-A.

Enquadram-se na classe 3 águas que podem ser destinadas: a)  ao abastecimento para consumo humano, após tratamento convencional ou avançado; b) à irrigação de culturas arbóreas, cerealíferas e forrageiras; c) à pesca amadora; d) à recreação de contato secundário; e) à dessedentação de animais.

Com o enquadramento da lagoa na classe 3 previsto para até o fim deste ano, a prefeitura sustenta que ela estará livre de florações de algas, de maus odores e da mortandade de peixes, e será possível utilizá-la para recreação de contato secundário, ou seja, a prática de atividades em que o contato com a água seja esporádico ou acidental e a possibilidade de sua ingestão é pequena.

Com esse propagandeado andamento do programa de recuperação da água, o prefeito Márcio Lacerda já afirmou, em muitas ocasiões, que pretende velejar na Lagoa da Pampulha até o fim deste ano. Há quem pague para ver (confira análise em vídeo do biólogo Ricardo Motta).

 

Motta ainda mostra-se cético em relação à eficácia do tratamento. Ele cita o próprio exemplo da mortandade de peixes ocorrida nesta semana.

“O que isso tem a ver com o processo de despoluição da lagoa? Muito simples. O processo não está legal. Porque se estivesse bem feito, nós teríamos oxigênio em profundidades maiores”, observa ele, que passou os últimos 37 anos estudando a Lagoa da Pampulha. “A percepção sobre a melhoria da qualidade da água não deve apenas ser embasada em laudos técnicos. Quem anda na represa já notou que há algo errado e está insatisfeito com o andar da carruagem. A despoluição não está acontecendo com a velocidade que gostaríamos”, pontua Motta.

Um outro fato corrobora a avaliação do biólogo. Nas últimas semanas, verificou-se a floração de algas em alguns pontos da lagoa, formando uma camada da chamada “nata verde” na superfície. Isso ocorreu, por exemplo, na enseada próxima à Igrejinha da Pampulha, provocando, inclusive, maus odores.

A prefeitura explica que houve vazamento de esgoto em interceptor da Copasa e admite ser difícil controlar eventualidades do tipo, mas sustenta que, no geral, a água da lagoa está com uma qualidade boa e próxima da categoria classe 3.

 

 

Programa vai durar 22 meses
ao custo de R$ 30 milhões 

A prefeitura iniciou os trabalhos de recuperação da qualidade da água da Lagoa da Pampulha em março. Basicamente, o programa, que tem duração total de 22 meses, é dividido em duas etapas. São dez meses para se atingir os padrões de classe 3 e mais 12 meses de manutenção desse padrão.

O investimento nesses serviços é de cerca de R$ 30 milhões, numa ação do Programa Pampulha Viva, financiado pelo município junto ao Banco do Brasil e ao BDMG. O serviço é supervisionado pela Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura e pela Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap).

A expectativa é de que as metas de qualidade da água sejam alcançadas ao final de 2016. Depois de atingir as metas finais previstas, as atividades de manutenção da qualidade da água serão mantidas por mais um ano através do contrato vigente.

A primeira fase dos serviços de limpeza da lagoa compreendeu coletas e análises da água e dos sedimentos. A partir dos resultados obtidos, segundo a prefeitura, foi elaborado um diagnóstico das condições da água, “passo fundamental para a verificação dos avanços alcançados.”

Na execução dos trabalhos são utilizados dois remediadores. Um deles,  o Enzilimp, tem a função de degradar o excesso de matéria orgânica (Demanda Bioquímica de Oxigênio – DBO) e reduzir a presença de coliformes fecais (E. coli).

O outro remediador, o Phoslock, é capaz de promover a redução do fósforo e controlar a floração de algas. Ambos são registrados junto ao Ibama, já foram testados em outros lugares do Brasil e do exterior, com excelentes resultados, informa a prefeitura, que cita como exemplo a despoluição de um rio em Pequim e de lagos em Londres, antes da realização dos jogos olímpicos de 2008 e 2012, respectivamente.

A previsão é de até o fim do contrato aplicar 51 toneladas de Enzilimp e mil toneladas de Phoslock. Há um planejamento de aplicação levando-se em conta também aspectos técnicos com relação aos produtos, porém, observa a prefeitura, isso pode variar de acordo com os resultados das amostragens dos diversos fatores relativos a qualidade da água da Lagoa. A aplicação dos produtos é realizada através de aspersão via embarcação e em todas as áreas da Lagoa.

Eliminações clandestinas

O Programa Pampulha Viva integra o Programa de Recuperação e Desenvolvimento Ambiental da Bacia da Pampulha (Propam), que tem por objetivo promover o desenvolvimento ambiental, urbano e econômico da Bacia Hidrográfica da Pampulha.

Na primeira etapa do programa, foram retirados 850 mil metros cúbicos de sedimentos da lagoa. O trabalho de desassoreamento, realizado ao longo de um ano, foi concluído em outubro de 2014. Para assegurar a manutenção do desassoreamento, está em licitação (SMOBI 021/2016) contrato para a retirada de 115 mil metros cúbicos de sedimentos por ano, a partir do primeiro semestre de 2017, por um período de quatro anos.

Também no âmbito do programa, a Copasa vem executando obras de implantação e complementação da infraestrutura de esgotamento sanitário na bacia hidrográfica, em parceria com os municípios de Belo Horizonte e Contagem.

Esse trabalho inclui a identificação e a efetivação de potenciais ligações domiciliares ao sistema, além da eliminação de ligações clandestinas de esgoto à drenagem. Conforme compromisso assumido pela Copasa, serão alcançados, respectivamente em dezembro de 2016 e em junho de 2017, níveis de cobertura na coleta e interceptação de esgoto sanitário na bacia da Lagoa da Pampulha, de 90% e 95%.

468 ad