Barreira inglesa

Um mecanismo chamado cortina de sedimentos é mais uma aposta para minimizar a poluição e o assoreamento na Lagoa da Pampulha. Com a finalidade de reter lixo, vegetação flutuante e até sedimentos mais finos, a moderna barreira foi importada da Inglaterra para substituir a antiga e rudimentar rede com tambores já existente em um dos trechos mais estreitos da represa.

A instalação da cortina é uma proposta do Consórcio Pampulha Viva, que realiza desde março passado o tratamento bioquímico da água da Lagoa ao custo de R$ 30 milhões por um contrato de 22 meses com a prefeitura de Belo Horizonte.

Os custos com o novo material e a instalação dele estão calculados em R$ 250 mil, mas o Consórcio informa que não haverá aditivo no contrato com a prefeitura, pois se trata de “uma doação” ao município.

As cortinas de sedimentos são estruturas de flutuação, com fundeio, desenvolvidas para retenção do excesso de material particulado na água (orgânico e inorgânico com presença de fosfatos), sólidos suspensos, coliformes fecais, contaminação de esgotos, algas e lixo flutuante.

São construídas em polipropileno ou neoprene, sendo a parte de cima flutuante com bóias e a parte de baixo fundeada no leito do corpo hídrico. O comprimento da cortina na referida área da Lagoa da Pampulha, de uma margem a outra (veja linha vermelha na figura abaixo) será de 250 metros, com um profundidade média de 1,5 metro.

Linha vermelha indica o ponto de instalação da nova cortina de sedimentos
Linha vermelha indica o ponto de instalação da nova cortina de sedimentos

“Com base nesta proposta, o objetivo geral do projeto é reduzir as cargas de matéria orgânica e material particulado, rico em fosfatos, oriundas de tributários poluídos que deságuam na área de montante do reservatório”, justifica o relatório assinado por Thiago Finkler Ferreira, coordenador técnico do Consórcio Pampulha Viva.

Segundo o relatório, o principal caso de sucesso da cortina de sedimentos ocorreu em agosto de 2014 nos jogos da CommonWealth realizados em Glasgow, na Escócia, onde o mecanismo foi utilizado para conter a contaminação de coliformes fecais no Lago Strathtclyde, no qual foram realizadas provas de maratona aquática e triatlon.

“Os resultados foram extremamente satisfatórios e possibilitaram a realização das provas no local, pois em curto prazo observou-se a retenção de grande parte de materiais e contaminantes em suspensão na água, melhorando a qualidade da água nas áreas a jusante da cortina”, informa o documento do Consórcio que sustenta a necessidade de instalação da barreira na Lagoa da Pampulha.

A chegada da cortina a Belo Horizonte está prevista para este mês de outubro. A instalação pela empresa inglesa Aquatic Engineering também deve ocorrer em outubro ou, mais tardar, em novembro.

A empresa inglesa Aquatic Engineering faz a instalação da cortina no Lago Strathtclyde, em Glasgow, na Escócia
A empresa inglesa Aquatic Engineering faz a instalação da cortina no Lago Strathtclyde, em Glasgow, na Escócia

Colunista do Viva Pampulha, o biólogo e limnólogo Ricardo Motta faz uma avaliação positiva da estratégia do Consórcio e aprova a opção pela cortina.

“Essa barreira é um instrumento de gestão importante. Em primeiro lugar porque ela retém lixo. Outra função dela é reter os aguapés em época de chuva. Outro aspecto importante é que ela retém sedimentos”, avalia Motta (confira o vídeo abaixo).

O Consórcio considera que a função da cortina de sedimentos é importante em muitos aspectos, inclusive para que seja cumprida a meta de se atingir o padrão classe 3 na água da Lagoa até o fim deste ano, prazo estabelecido desde o início do tratamento bioquímico. Até porque a barreira será uma aliada estratégica neste fim de ano, já que o período é de chuvas e aumenta a vazão e o volume de resíduos em 1000% ou mais na lagoa.

“Poder contar com esse mecanismo é uma condição técnica significativa para uma maior eficácia da tecnologia adotada no processo de despoluição da Lagoa”, afirma o especialista em engenharia sanitária e ambiental Marco Antônio de Andrade, gerente de projeto do Consórcio.

De acordo com o Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente), enquadram-se na classe 3 águas que podem ser destinadas ao abastecimento para consumo humano, após tratamento convencional ou avançado; à irrigação de culturas arbóreas, cerealíferas e forrageiras; à pesca amadora; à recreação de contato secundário; à dessedentação de animais.

Com o enquadramento na classe 3 previsto para até o fim do ano, a prefeitura sustenta que a lagoa estará livre de florações de algas, de maus odores e da mortandade de peixes, e será possível utilizá-la para recreação de contato secundário, ou seja, a prática de atividades em que o contato com a água seja esporádico ou acidental e a possibilidade de sua ingestão é pequena.

Assoreamento

A função da cortina não é importante somente a curto prazo, considerando que ela divide a lagoa em duas partes e vai proteger três áreas a jusante, que são a enseada da Igrejinha, a enseada próxima ao Museu de Arte da Pampulha e a região do Vertedouro.

“A água nessas áreas já está com uma transparência maior e bem próxima do padrão classe 3”, pontua Marco Antônio de Andrade.

Antiga rede com tambores será substituída: 250 metros de extensão de uma margem a outra
Antiga rede com tambores será substituída: 250 metros de extensão de uma margem a outra

Além de blindar essas três áreas da chamada poluição difusa, a cortina, espera-se, vai minimizar também o assoreamento nelas, considerando que retém não apenas vegetação e lixo lutuantes, mas também os sedimentos mais finos.

“Com essas áreas mais protegidas, a manutenção do padrão da água na classe 3 é facilitada nelas”, observa o gerente de projeto do Consórcio.

Paralelamente, completa ele, as ações de despoluição e de desassoreamento, esta função da Sudecap, ficarão mais concentradas na outra parte da lagoa, a montante da cortina, que é a região do Parque Ecológico, na qual o assoreamento e a qualidade da água são mais críticos.

É justamente nessa área mais afetada da lagoa que desaguam os aportes de fósforo e sedimentos dos fluentes que recebem toda a contribuição de esgotos in natura do município de Contagem, notadamente o Córrego Sarandi.

Quanto ao esgoto doméstico e industrial , que é o maior desafio efetivamente na luta contra a poluição,  a Copasa tem o compromisso de  alcançar, respectivamente em dezembro de 2016 e em junho de 2017, níveis de cobertura na coleta e interceptação de esgoto sanitário na bacia da Lagoa da Pampulha, de 90% e 95%.

Peixes  

De acordo com o relatório do Consórcio, a cortina permite a passagem de água sobrenadante por estruturas denominadas flaps, não impossibilitando o fluxo e vazão de corpos hídricos. O documento também explica que não há impedimento quanto ao deslocamento de peixes de um lado para o outro da barreira e que a navegação de barcos de pequeno porte (botes ou similares) não é impactada. Confira perguntas e respostas sobre o tema logo abaixo.

Substituição de velha barreira está prevista para outubro: cortina vai proteger três áreas estratégicas
Substituição de velha barreira está prevista para outubro: cortina vai proteger três áreas estratégicas

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Qual é o impacto sobre a fauna e peixes? Os peixes seriam represados entre as diferentes áreas separados pela cortina?
Não há impedimento para deslocamento de peixes, pois podem ser instaladas estruturas de passagem de peixes e fauna aquática em geral, através de aberturas (flaps) na parte superior, por onde esses organismos podem transitar. A navegação de barcos de pequeno porte (botes ou similares) não é impactada, devido às mesmas estruturas que permitem a passagem da água superficial.

Qual é a durabilidade?
As cortinas são de poliéster revestido como PVC, com espessura mínima de 3 milímetros. São muito resistentes e portanto tem alta durabilidade, mantendo-se eficientes por muitos anos se mantidos cuidados mínimos.

Como funciona o processo de instalação?
Realizado manualmente por equipe especializada da empresa inglesa Aquatic Engineering. A empresa produz as cortinas e tem experiência em instalações em dezenas de ambientes aquáticos da Europa

Como funciona o represamento da água?
A cortina é projetada de acordo com as necessidades e especificidades de cada ambiente. Na maioria dos casos, o represamento da água e retenção de sedimentos pode ser superior a 95% , passando apenas o sobrenadante e volumes maiores pelas estruturas de fluxo chamadas de flaps. Porém, para lagoas com tempo de residência não elevado, como a Lagoa da Pampulha, o projeto deve priorizar um fluxo maior.

Há a necessidade de licenças ambientais internacionais?
Na Europa, não há necessidade de uma autorização geral, apenas autorizações para locais específicos para quando considerado necessário. Na Inglaterra o Orgão Ambiental Broads Authority já aprovou diversos usos da cortina, especialmente para projetos de recuperação incluindo biomanipulação, os quais onde justamente visam a impedir a passagem de peixes considerados indesejados por revolverem o fundo dos lagos e acabarem aumentando a turbidez e eutrofização interna. Para estes casos, as cortinas são projetadas de modo a ter uma borda mais elevada para que não haja passagem de água e ictiofauna.

Como é a dinâmica em função da variação de nível da água?
A cortina é instalada prevendo variações de nível da água e eventos de vazões críticos. Como a cortina possui estruturas de flutuação, ela pode acompanhar a variação de nível no sistema.

FONTE: Consórcio Pampulha Viva

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