Basquete no Castelo

Entre os frequentadores da quadra poliesportiva do Parque Vencesli Firmino da Silva, no bairro Castelo, Arlindo Júnior é conhecido como Professor. Engenheiro Mecânico aposentado, ele não se dedica ao ensino da profissão, mas sim a um esporte que passou a amar, dentre tantos que praticou na infância: o basquete.

No Parque, ele desenvolve há quatro anos o projeto Basquete Popular do Bairro Castelo, que hoje conta com mais de 80 atletas inscritos. A iniciativa tem como proposta socializar pessoas e preencher o tempo livre de crianças do bairro e do entorno com uma proposta educativa, além de disseminar valores morais, como gosta de frisar Arlindo. “Nas minhas aulas, se um atleta falar um palavrão em quadra, é dada falta técnica. Aqui não tem briga, não tem discussão, não tem desrespeito. Senão, fica no ‘banco’. Pra jogar, tem que saber conviver com o outro e respeitá-lo”, pontua ele.

Aos 65 anos, Professor conta que a ideia de ensinar os fundamentos do esporte surgiu quando se mudou para o Bairro Castelo. Ele observava a quadra do parque subutilizada, com jovens jogando isolados uns dos outros. “Eles jogavam basquete em horários alternativos e, muitas vezes, não conseguiam reunir jogadores o suficiente para uma partida”, lembra.

Numa tentativa de popularizar o basquete, Arlindo começou um trabalho que ele considera “de formiguinha”. A quadra do Parque Vencesli Firmino da Silva, que fica na divisa do Castelo com o Alípio de Melo, passou a receber, então, um senhor entusiasta do basquete, que convidava os jovens para fazer alguns arremessos e, aos poucos, estavam todos jogando juntos.

Ele, que já foi vice-campeão mineiro como atleta de basquete em Pará de Minas, fala dos benefícios do esporte no desenvolvimento dos jovens. “Eu nunca parei de jogar basquete, mesmo depois que segui a carreira de engenheiro. Aqui em BH, jogava com os ‘Basqueteiros do CEU (uma equipe amadora no Centro Esportivo Universitário da UFMG). Isso me trouxe muitas amizades, um senso de coletividade excelente e muita disciplina”.

Aos poucos, a brincadeira na quadra do parque se transformou em projeto e Arlindo passou a dar aulas todos os sábados no local, gratuitamente, com a autorização da Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da Fundação de Parques Municipais (FPM), que administra o espaço. “As aulas começam às 9h da manhã e vão até às 18h. De manhã, priorizo ensinar o público infantil. À tarde, chega a turma do juvenil e os adultos”, detalhou Professor.

Professor Arlindo Junior (ao centro) entre os alunos na quadra do parque no bairro Castelo
Professor Arlindo Junior (ao centro) entre os alunos na quadra do parque no bairro Castelo

Medidas oficiais

Arlindo se orgulha dos frutos de seu trabalho. “O atual diretor disciplinário do projeto, Karl Cardoso, era aluno do projeto, e um aluno difícil, rebelde. Aos poucos, foi entendendo a filosofia do esporte e como o atleta deve se comportar para seguir em frente no esporte. Hoje, me ajuda a disciplinar os times que temos, é um braço direito”, comemora.

Gabriel Carvalho, de 22 anos, há dois participa das aulas de basquete. “Aqui, aprendi o amor pelo esporte e pelas amizades”, comenta. A mesma opinião tem Daniel Felipe Maciel, 19. Há dois anos no projeto, ele hoje estuda em Ouro Preto, mas sempre que está em Belo Horizonte, aos fins de semana, faz questão de participar das aulas. “Aqui eu fui extremamente bem acolhido. Eu jogava em clubes de BH e acabei saindo por indisciplina, por falta de comprometimento com os treinos. Mais tarde, quando procurei um lugar para voltar a jogar, foi aqui que encontrei espaço. A turma é muito legal, todo mundo é amigo. Temos meninos e meninas jogando juntos e todos se respeitam, todo mundo convive super bem, sem distinção de sexo, cor, idade, nível de habilidade. Tenho verdadeiros amigos que conheci aqui”, completa.

Sandro Muzzi, 41, participa das atividades há apenas seis meses, mas já destaca a importância do esporte na vida e formação dos jovens. “Cera de 90% dos amigos que fiz no esporte, que sempre pratiquei, não se envolveram com drogas ou outro tipo de vício e violência”.

Para consolidar outro objetivo do projeto, que é o de popularizar o basquete, um grande esforço coletivo já foi feito. Era necessário adequar a quadra às medidas oficiais do esporte. Assim, os atletas, em parceria com a Prefeitura, fizeram nova pintura no local, revitalizaram o espaço e adequaram as alturas das tabelas para a prática contínua das atividades.

Alunos durante aula com o Professor
Alunos durante aula com o Professor

O presidente da Fundação de Parques Municipais, Sérgio Augusto Domingues, considera que o espaço público, quando tem a estrutura e as utilizações aprimoradas com a participação dos próprios frequentadores, reafirma o DNA, de ser um lugar para todos. “Os parques de BH estão e sempre estarão abertos a iniciativas como esta, que visem não só a estimular valores de bem, mas também ao convívio de pessoas em meio à natureza. Isso contribui para a preservação do espaço, seja pela ação direta, seja pelo desenvolvimento da consciência de que é importante que cada um faça sua parte no cuidado e na manutenção dos parques”, afirma Domingues.

Os benefícios foram sentidos não só pelos atletas. Mariana Moura, moradora vizinha ao parque, conta que o local ficou mais movimentado e animado aos fins de semana e que o filho mais novo dela, com apenas 5 anos de idade, sempre a pede para levá-lo ao local para ver os atletas jogarem. “Acho que muito em breve ele começará a praticar basquete”, afirma.

Para participar do projeto, não é necessária inscrição prévia. Qualquer pessoa pode ir treinar. Basta ir vestido com tênis, camiseta e short. As atividades são gratuitas.

O Parque

Criado em 1995 e implantado em 2009, por meio do Orçamento Participativo 2005/2006, o Parque Vencesli Firmino da Silva funciona de terça-feira a domingo, das 8h às 18h.

Com uma área aproximada de 20,2 mil metros quadrados, o parque oferece diversas opções de lazer, como campo de futebol, pista de caminhada, teatro de arena, quadra de vôlei, brinquedos, pista de skate e equipamentos de ginástica. A FPM está elaborando o levantamento científico sobre fauna e flora existentes no parque A entrada é gratuita. Mais informações pelo telefone 3277-8403.

Lívia Ansaloni – Da Fundação de Parques Municipais

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