Brasil: a crise do diesel e o modismo de nossa gente

Os brasileiros, um povo acostumado a enfrentar todo tipo de contratempos, tiveram uma dose extra de sofrimento nos últimos dias. A greve dos caminhoneiros pegou não somente o governo, mas todo o povo de surpresa. Prateleiras vazias nos supermercados, sacolões sem ter o que vender, falta de transporte público, falta de combustível.

Após dez dias de incertezas, e todos com a atenção voltada às redes socais, aos noticiários da TV, rádio e jornais, vencemos mais esse desafio. Agora, que o pior já passou, uma verdadeira profusão de análises, artigos, entrevistas e pronunciamentos tenta explicar, confortar e justificar o que era impensável há apenas alguns meses.

O brasileiro não é bobo. Apesar de todas as explicações, de todas as justificativas e de todas as teorias, uma coisa é certa: vamos nos dando conta de que a vida realmente piorou muito nos últimos tempos. Hoje, no país, ninguém pode assegurar que o futuro próximo vai trazer algum alívio. Aliás, muitos são os presságios de que exatamente o contrário os espera.

Eu não tenho a pretensão, nessas breves linhas, de apresentar uma análise aprofundada dos fatores que nos levaram ao caos no abastecimento ou fazer um prognóstico de como será o futuro. No entanto, como pesquisador que tem se dedicado à questão do desenvolvimento sustentável no Brasil há um bom tempo, tenho, em minhas publicações acadêmicas, chamado a atenção dos meus leitores para as repetidas “crises” que estamos enfrentando, uma a uma, ao longo das últimas décadas.

Em um de meus livros recentes, “Gestão de Recursos Hídricos em Tempos de Crise”, Ed. ARTMED, Porto Alegre, 2017, eu previ que teríamos no país uma sequência de crises (hídrica, de abastecimento, política etc.). Apesar de que sempre existe uma razão imediata para uma dada crise, proponho que a ausência de um planejamento econômico realmente voltado à sustentabilidade no Brasil, em seu sentido mais absoluto, é o que está por trás dessas crises.

Temos a energia elétrica e os combustíveis mais caros do mundo. A nossa rede de transportes metropolitanos é típica de um país africano, dos mais atrasados. A política habitacional mais afasta que aproxima o cidadão médio de sua moradia, pois os juros bancários transformam o mutuário da casa própria em um eterno pagador de juros aos banqueiros.

Através de estradas ruins ou péssimas flui a riqueza do país. Com a honrosa exceção de São Paulo (onde o pedágio é, muitas vezes, impagável), a maioria de nossas BRs está em más condições, principalmente aquelas que atravessam o país de norte a sul, ou de leste a oeste, tais como as BR 101, 116, 319, 153 e a famosa 262.

Uma das coisas mais interessantes a observar no progresso econômico do Brasil é o fato de que já fomos um país completamente desenvolvido sobre os trilhos. Na primeira metade do século XX, havia ferrovias que uniam o Rio Grande do Sul ao Piauí, sendo uma boa parte delas eletrificada. As poucas ferrovias que restaram ou estão completamente dedicadas ao transporte de commodities ou foram simplesmente abandonadas e os seus trilhos arrancados.

O que esperar de um país, com um litoral de 7.000 km e uma das maiores bacias hidrográficas do mundo, que não dispõe de um sistema de navegação de cabotagem ou fluvial eficiente?

Agora, vem a pergunta que não quer calar-se: como nossos gestores públicos contrataram profissionais e acadêmicos tão incompetentes que nos levaram à situação de penúria da semana passada?

Acho, no entanto, que a culpa não deve ser creditada exclusivamente aos gestores e políticos. O brasileiro gosta de andar na moda. Só que esquecemos de que modas passam e, muitas vezes, uma moda antiga pode voltar à cena, quase sempre em uma versão melhor. Graças à moda do automóvel, abandonamos os bondes e as ferrovias. Hoje, em qualquer cidade européia, os VLTs (bondes) dominam o cenário. A China tornou-se um gigante em economia graças, entre outras coisas, a suas ferrovias.

E veio a moda de se morar em cidades. E, assim, incentivamos um dos maiores movimentos migratórios do campo para as cidades que se tem notícia. E tornamos as nossas cidades inabitáveis por desmerecer a vida no campo, tida como algo atrasado e ruim.

Os ecologistas ficaram em moda nos anos 70. Aprendemos com eles a odiar certas formas de energia que poderiam hoje estar fazendo um belo papel em nossa matriz energética, tornando-a muito mais sustentável e a energia infinitamente mais barata. Graças à moda da energia hidroelétrica, destruímos milhares de quilômetros quadrados de florestais tropicais.

E, o que é pior, o modismo ingênuo de nossos ambientalistas incentivou toda a uma geração de jovens a odiar toda forma de progresso econômico. Com isso, milhares de jovens preferiam ir morar em alguma praia deserta do Nordeste, onde passaram a engrossar a geração dos nem-nem (nem estudam nem trabalham). Felizmente, essa onda passou.

Recentemente, tivemos uma nova moda entre os jovens. A de fazer um concurso público e a perspectiva de passar o resto da vida na segurança de uma boa posição dentro do Estado. Pouco importava se era um trabalho interessante ou se contribuía para o progresso do país. Felizmente, essa onda também está passando, graças à longa crise que o Estado atravessa, o que obriga a prefeituras, estados e até mesmo a União a atrasar salários e estimular as demissões voluntárias.

E, agora, temos uma nova onda. E uma boa moda, dessa vez. A figura do jovem empreendedor prolifera no país. Jovens com uma nova visão e prontos a enfrentar o desafio de contribuir de fato para um futuro sustentável em nossas cidades. É preciso apoiar essa gente para colaborar para uma nova economia, mas não antes de enterrar de vez os dinossauros do crescimento econômico do Brasil, aqueles que nos levaram ao caos da semana passada.

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