Caminhando, caminhando…

Dá para ver que choveu durante a madrugada na orla da Pampulha.

Ainda se vê na pista um molhadinho aqui e acolá. O gramado da margem da Lagoa ainda está úmido.

O céu , embora nublado, soa enigmático. Será que vai chover mais ou vai abrir um solzinho? Tudo parece possível.

Como meu lado Maju é zero, o foco se volta imediatamente para um papo que se aproxima.

“Eu acho que esse governo está atendendo às elites. O outro bandeou muito para os pobres, por isso quebrou a cara. E esse está bandeando para os ricos. Estamos lascados”, diz um prezado que passa reclamando com a colega de caminhada.

Sabe aquela pessoa que ouve uma piada, percebe a graça meio minuto depois e dá uma risada fora de hora?

Pois, bem.  Pareceu-me o caso do sujeito em questão que passou chiando sobre o governo. O choro dele está bem atrasadinho. Era pedra cantada, meu caro…

Provavelmente ele devia estar falando sobre a reforma da previdência.

Por falar nisso, minha mulher começou a contribuir com 16 anos. Pelas contas que fez, só vai conseguir se aposentar com o valor integral aos 68 anos de idade.

Olho para a Lagoa e vejo um cágado em cima de uma pedra. A imagem mexe com minha imaginação.

Vejo-o ilhado e isolado na pedra, cercado de água, sem saída, sem escolha.

Na verdade, é claro que ele está seguro ali, mas uma metáfora vem à minha cabeça.  Esta é a situação do cidadão brasileiro, cada vez mais acuado por um Estado ineficiente e corrupto.

Sigo caminhando no calçadão. Apresso o passo para ver se consigo um barato qualquer com endorfina. É preciso se esforçar pela recompensa, mas esta missão é muito mais simples que se aposentar.

Uma dupla de ciclista passa como um raio, mas é possível ouvir um trecho de uma frase.

“Qualquer coisa eu vou sozinho dar mais uma…”

Segundos depois, outra dupla passa zunindo.

“Nesse ritmo não vou conseguir dar mais de…”

Lá ele, como se diz na Bahia.

Ao chegar em frente à Casa Kubitschek, percebo que o Mirante Bandeirantes, que estava em  obra, ficou pronto. Há uma placa nova nele. Paro para clicar.

mirante
mirante

A placa traz explicações sobre a Pampulha, fala sobre o visionário JK e os gênios Niemeyer, Portinari e Burle Marx. E menciona um monumento chamado “Eterna Modernidade”, em homenagem a eles.

Não vejo monumento algum no mirante.

E aí, produção? Alguma explicação? Quando chega o tal monumento? Ou a placa já é o próprio???

(…)

Mais adiante,  um mau cheiro ataca minhas narinas.

Olho para a Lagoa e vejo as chamadas natas. São florações de algas no espelho d’água. Normalmente isso ocorre em áreas nas quais há entrada de esgoto. Arghhhh, como fede!

nata

Ahhhh… A endorfina. Como já estou caminhando em um ritmo forte há pelo menos meia hora, consigo sentir um princípio de barato. Nada demais, até porque não fiz por merecer nada tão lisérgico tipo Easy Rider.

Mas a ondinha é suficiente para eu me esquecer do Michelzinho, da previdência, da nata, do esgoto…

É isso.

O negócio é seguir caminhando, como cantava Victor Jara: “Caminando, caminando / Voy buscando libertad / Ojalá encuentre camino / Para seguir caminando / Es difícil encontrar / En la sombra claridad / Cuando el sol que nos alumbra / Descolora la verdad / Cuánto tiempo estoy llegando / Desde cuándo me habré ido / Cuánto tiempo caminando / Desde cuándo caminando / Caminando, caminando.

Uma hora a gente chega.

Não sei aonde exatamente, mas a gente chega…

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