Conversa à beira da lagoa

Entre assuntos que iam das pernas de Marlene Dietrich às últimas loucuras de Hitler, quatro cavalheiros proseavam à beira da lagoa quando um barquinho carregado de lixo interrompeu a conversa.

Visionário como sempre, Juscelino foi o primeiro a avistá-lo.

“Uai!”, estranhou o mineiro, apontando a triste imagem aos colegas.

“Why not?”, questionou Roberto.

“Navegar é preciso…”, emendou Candido.

“Não quero luxo nem lixo”, ponderou o comunista Oscar.

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Eis que um segundo barco lotado de lixo surge…

Juscelino estava indignado. Não era isso o que imaginara. Atônito, pensou até em desmarcar a seresta agendada para logo mais.

“Como pode o peixe vivo viver no meio deste lixo?”, lamentou.

“Onde havia peixes, há mercúrio. Onde havia florestas, há cinzas”, constatou Roberto.

“Nos corrompemos com os sonhos dos bens materiais, jogamos a ética e a moral no lixo. Como cobrar excelência de comportamento da juventude?”, questionou Candido, candidamente sentado em um banco e a espreitar o debate de camarote.

“A gente tem que sonhar, senão as coisas não acontecem”, argumentou Oscar.

Juscelino fez que sim com a cabeça.

“O otimista pode até errar, mas o pessimista já começa errando”, definiu.

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Sim, iria ter seresta. E tudo o que haveria de preencher o roteiro, da gafieira ao frango ao molho pardo, passando por Pampulha, leitoa assada e Brasília.

“Deixemos entregues ao esquecimento e ao juizo da história os que não compreenderam e não amaram esta obra”, sentenciou Juscelino.

Papo encerrado, o quarteto seguiu para um almoço no qual o menu teria leitoa assada harmonizada com vinho rosé.

Tin-tin, brindaram todos, certos de que o futuro seria de bons ventos por essas plagas e águas.

(…)

E aí, vamos velejar, senhor Marcio?

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