É a burocracia, Zema!…

Em tempos de cofre vazio, todos gritam contra o chefe do Executivo mineiro: prefeitos ameaçam processá-lo por crimes de responsabilidade, servidores públicos fazem paralisações ou greves e, de resto, toda a sociedade reclama da falência do Estado, diante da notória precariedade dos serviços públicos por ele ofertados à população.

O problema é que, como torcidas organizadas, uns gritam (muito) mais alto do que outros!

Setores da política mineira, com dezenas de deputados estaduais, outras centenas de prefeitos e milhares de vereadores espalhados pelas Gerais, somados com os diferentes setores do funcionalismo público, dentre os quais do Judiciário e do Ministério Público, em geral dão corpo a uma burocracia estatal que, no fundo, possui interesses próprios e, não raro, diversos daqueles mais imediatos da população que, no fim das contas, é quem fica na fila do SUS ou se desloca diariamente por meio de transporte público simplesmente, quando existente, indigno.

Vejam só isso: hoje quem mais grita são os mesmos políticos e servidores públicos que antes, na gestão passada, também berravam mais alto! O pior de tudo, todavia, é que todos sabem que o estado falimentar de Minas Gerais não pode ser resolvido de uma hora para outra.

Dizem que o governador Zema não conversa com os deputados estaduais ou que não recebe os prefeitos para tratar dos repasses fiscais obrigatórios. Fico imaginando, em tal contexto, o que teriam para conversar: o governador ouviria as reclamações e lamentaria a péssima situação das contas públicas, ao passo que os deputados estaduais sairiam com a promessa de que seus afilhados poderiam assumir cargos no Executivo ou de que as emendas orçamentárias direcionadas a seus currais eleitorais seriam atendidas; já os prefeitos, também após as lamentações do governador, sairiam com o compromisso de que o problema do repasse das verbas fiscais seria equacionado etc. e tal.

Romeu Zema, governador de Minas Gerais
Romeu Zema, governador de Minas Gerais

Da mesma maneira, reuniões ou negociações com os servidores públicos ficariam, certamente, inchadas por reclamações, lamentações e por promessas de solução quanto aos atrasos de pagamento da folha salarial do Estado.

Mas o que fazer, especialmente em se tratando de um personagem absolutamente estranho do metiê político tradicional, na verdade eleito no susto, dele próprio e de todos nós, escolhido no fim de tudo por ampla maioria de (indignados) mineiros e mineiras, muito por ter se apresentado como um adepto da tal nova política?

Longe do tempo em que mandava e desmandava em suas empresas, desde de janeiro passado Zema tomou assento como chefe máximo do Executivo estadual, posição que lhe permite fazer muito, mas nem tudo o que deseja, afinal sequer residir fora da capital, para ficar mais próximo da Cidade Administrativa, lhe foi permitido.

Ora, é intuitivo que dialogar, conversar e ouvir a burocracia estatal deve, ninguém duvida, ser uma verdadeiro (saco ou) tormento, contudo é necessário porque, sem isso, nada avança e tudo fica como hoje está.

Não diria domar, porém é preciso engajar os burocratas na construção de alternativas políticas, legais ou administrativas capazes, inicialmente, de equilibrar e depois estabilizar as contas públicas.

Aqui não tem política velha ou nova, pelo contrário, exige-se tão somente o emprego da política como uma habilidade para conciliar interesses e para pacificar conflitos, com base na ordem jurídica e respeitando, sempre, os preceitos mais fundamentais da República, particularmente aqueles que consagram a moralidade e a probidade púbica, como valores a serem assumidos pelas diferentes espécies de servidor público.

Os inimigos, governador Zema, não estão fora, mas sim dentro da burocracia estatal, e lidar com eles dispensa armas, entretanto, acima de tudo, demanda (exagerada) paciência e (extravagante) disposição para ouvir e decidir os rumos do Estado, isso tudo, parodiando Che Guevara, sin perder la probidade jamás!

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