Espaços acessíveis: pensando fora da caixa

Este mês tive a oportunidade de experimentar as dificuldades de um cadeirante. Usei uma cadeira de rodas em um hotel aqui de BH e experimentei ir ao banheiro acessível para saber as reais necessidades de alguém nessas condições. Foi atordoante e ao mesmo tempo me abriu uma janela que até então estava entreaberta.

Ali pude perceber que a limitada sou eu. Como posso ter vivido até então sem ter passado por isso? Eu, como arquiteta, tenho o dever de conhecer essas limitações para que possa fazer projetos realmente acessíveis, e, como cidadã, o dever de cobrar espaços aptos para receberem pessoas com dificuldades motoras, idosos ou em tratamento médico.

Na “pele de um cadeirante”, percebi que o simples desnível de piso de 1,5cm me gerou um transtorno enorme; a cadeira travou e eu fiquei por uns dois minutos tentando passar pelo obstáculo. Ao chegar na porta do banheiro fiquei mais alguns minutos tentando entrar, pois a abertura era exatamente a largura da cadeira, tive que ser muito boa na baliza.

O sensor de presença da iluminação estava ajustado para fazer a leitura de uma pessoa em pé, ou seja, tive que ficar chacoalhando os braços pro alto para ver se ele registrava minha presença. O banheiro estava nas normas corretas em relação ao tamanho e disposições dos equipamentos, mesmo assim fiquei alguns minutos tentando fazer a transição da cadeira para a bacia sanitária.

Imagina alguém que realmente esteja apertado? Como uma amiga comentou, essa pessoa deve ir ao banheiro antes de sentir vontade, para que dê tempo de fazer todas as manobras ali dentro.

Obstáculos à acessibilidade em Belo Horizonte

Agora vamos nos colocar como cadeirantes pelos espaços públicos aqui em Belo Horizonte, sem cadeira de rodas, mas com o exercício de pensar quais os principais obstáculos em BH. As ruas, passeios, parques, estações não estão preparadas para isso. Aposto que muitos de nós não sairíamos nem do lugar.

Os passeios com as famosas pedras portuguesas, as raízes das árvores bloqueando totalmente o acesso, as valetas deixadas pela companhia de saneamento, as residências que estendem o acesso de suas garagens até o alinhamento da rua, deixando desníveis de 40, 50, 60cm. As guias altíssimas – muitas vezes não nos deixam nem abrir as portas do carro. Como sobreviver a isso?

Por que limitamos mais ainda os acessos dessas pessoas? A gente só se dá conta quando acontece com alguém próximo. Nós também vamos envelhecer, pode ser que um dia precisemos nos locomover através de uma cadeira de rodas.

As cidades são feitas por pessoas para pessoas. Por que estamos tão limitados em entender que esse “jeitinho” não é algo que devemos nos orgulhar? As normas existem e elas devem ser respeitadas. Vamos parar de fazer armadilhas, de pensar pouco, de oferecer o mínimo e achar que está tudo bem, e os outros que se adaptem à nossa preguiça de nos colocar no lugar de quem transita pela cidade, de fazermos o certo.

Vamos pensar fora da caixa para oferecer espaços cada vez mais acessíveis para a população!

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