Existe solução para a seca no Nordeste?

Neste janeiro de 2017, estive em Israel juntamente com o jornalista Pedro Costa, Cônsul do Brasil em Seattle, e o empresário americano-israelense Howard Gudell. O objetivo dessa viagem foi não somente conhecer um país que sempre me exerceu um fascínio muito especial, mas também iniciar uma série de contatos profissionais na área de recursos hídricos que justifiquem a ida de uma missão técnica em setembro deste ano.

Muitos haverão de perguntar-me porque Israel, logo um país que está localizado em uma das regiões mais áridas do planeta. Não é difícil responder a essa pergunta. Aliás, nem é preciso ir a Israel para respondê-la. Basta mencionar alguns fatos que podem ser constatados facilmente em uma busca no Google:

(a) Israel é líder mundial em tecnologia de irrigação. Lá foi inventada a irrigação por gotejamento, hoje usada em todo o mundo; (b) a agricultura em Israel, reconhecida mundialmente pela qualidade de seus produtos, usa, em grande parte, água de esgoto tratada e reciclada; (c) mais da metade da água que hoje é usada pelos israelenses em suas residências vem de usinas de desalinização. Essas usinas produzem 450 milhões de metros cúbicos de água por dia, o que equivale a um volume 50 vezes maior do que a água armazenada na represa da Pampulha.

Essas e muitas outras conquistas obtidas ao longo das últimas décadas foram o resultado de muito investimento em pesquisa básica e aplicada. E não somente isso. O estado de Israel sempre garantiu políticas públicas que permitiram a grandes empresas do setor público conviverem em perfeita simbiose com centenas de “startups” que começaram a atuar nesse segmento. Algumas dessas pequenas empresas logo se transformaram em gigantes globais na área de gestão de recursos hídricos.

Pois bem, os fatos relatados acima justificam plenamente uma viagem a Israel para conhecer essa realidade. Entretanto, como em toda viagem que fazemos na vida, muitos conceitos mudam quando de nosso regresso. Inicialmente, eu tinha a percepção de que o uso intensivo de tecnologia era a base do sucesso de Israel na questão hídrica. Essa é uma meia verdade.

Para justificar essa afirmativa, passo a narrar um encontro quer fizemos na Israel National Water Co. – MEKOROT, empresa estatal que cuida da captação, tratamento e distribuição de água para áreas urbanas e rurais de todo o país. Nesse encontro, estiveram presentes, além de nossa equipe, os doutores Yossi Yaacoby, Diego Berger e Mario Kummel (vide fotos, abaixo).

Encontro na estatal israelense Mekorot
Encontro na estatal israelense Mekorot
Gudell (esq.), Ofer Dahan, Pedro Costa e Ricardo Motta (dir.)
Gudell (esq.), Ofer Dahan, Pedro Costa e Ricardo Motta (dir.)
Mar da Galiéia (Lago Kinneret), a maior reserva de água doce de Israel
Mar da Galiéia (Lago Kinneret), a maior reserva de água doce de Israel

Nós já tínhamos conhecimento de que há um trabalho conjunto entre israelenses e brasileiros, fruto de missões brasileiras que têm sido realizadas em Israel ao longo dos últimos anos. Existem, por exemplo, parcerias consolidadas entre empresas públicas e privadas de vários estados brasileiros, principalmente no Nordeste, com empresas de Israel.

Nesse sentido, é bom ouvir o que pessoas envolvidas nessas percerias têm a dizer. O Dr. Berger é uma dessas pessoas. Ele já participou de várias ações no Nordeste, incluindo montagem de projetos, palestras, visitas técnicas etc. Ele, usando um português fluente, relatou-me alguns fatos que desejo ressaltar:

(a) existe muito mais água no Nordeste do que em Israel; (b) os usos múltiplos da água no Nordeste e a formas como são feitos esses usos são quase sempre inadequados; (c) não existe uma mensuração eficaz dos usos da água no Nordeste. A cobrança pelo uso da água, quando ela existe, é injusta e inadequada. Os irrigantes, por exemplo, pagam muito pouco pela água que consomem.

Ofer Dahan mostra uma usina piloto na Universidade Ben-Gurion, onde foi desenvolvida a tecnologia de desalinização da água do mar usada em Israel
Ofer Dahan mostra uma usina piloto na Universidade Ben-Gurion, onde foi desenvolvida a tecnologia de desalinização da água do mar usada em Israel

Em sua opinião, não existe saída para o Nordeste se não houver uma verdadeira “revolução” no conceito que lá prevalesce, de que a água é uma dádiva de Deus e de que ela deve ser distribuída sem custos para todos. A base para a superação da seca no Nordeste depende fundamentalmente da cobrança eficiente pela água que cada setor consome.

Obras faraônicas pouco vão ajudar se essa realidade não for mudada rapidamente. Eu vejo todas as noites na TV a distribuição de água no Nordeste sendo feita por carros-pipa. Ao mencionar essa realidade em Israel, ouvi a seguinte resposta: “se isso fosse feito aqui, o país estaria falido!”

Todos nós sabemos que no Nordeste existe uma verdadeira indústria da seca que alimenta uma base política oligárquica que se mantém no poder exatamente porque existe a seca. Em Israel, eu percebi muito bem a nítida relação entre progresso econômico, bem-estar e qualidade de vida e uma eficiente gestão das águas. Portanto, a primeira lição que eu aprendi em Israel é a seguinte: para vencer a crise das águas, é preciso cobrar um preço justo e adequado por ela!

Mar Morto, um dos lagos mais salinos da Terra, situado a 420 metros abaixo do nivel do mar, na fronteira com a Jordânia
Mar Morto, um dos lagos mais salinos da Terra, situado a 420 metros abaixo do nivel do mar, na fronteira com a Jordânia
Vale de Mitzpe Ramon, no deserto de Negev
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