Fábrica de vida

O maior produtor de “tesouro verde” de Belo Horizonte está situado dentro da Fundação Zoo-Botânica (FZB). Inacessível aos visitantes, o Jardim Botânico reserva 21 mil metros quadrados para a produção de mudas de árvores e plantas ornamentais que são destinadas a abastecer vias urbanas, praças, parques e outros logradouros públicos da capital mineira.

“Nosso trabalho é produzir essas mudas para atender às demandas de toda a cidade”, resume o engenheiro florestal Rodrigo Teixeira, responsável pela seção de produção de mudas do Jardim Botânico da FZB.

A área pode ser definida como a guardiã do bom funcionamento ecológico de BH. Mais de 200 espécies de árvores e de 200 espécies de plantas ornamentais são produzidas em duas estufas com irrigação automatizada, dois berçários e cinco rampas para a condução e rustificação das mudas, considerando os diferentes estágios de produção, desde a fertilização ao desenvolvimento das mudas.

O engenheiro florestal Rodrigo Teixeira mostra uma rampa de mudas de árvores produzidas no Jardim Botânico
O engenheiro florestal Rodrigo Teixeira mostra uma rampa de mudas de árvores produzidas no Jardim Botânico

Ipês, Sibipirunas, Pau Ferro, Pau Brasil, Oitis e Quaresmeiras estão entre as árvores mais comuns. Já as mais exóticas são a Magnólia Amarela, a Calistemon, a Filicius, a Escumilha Africana e o Ipê Rosado.

“Algumas mudas de árvores chegam a ficar aqui por cinco anos, até atingir o estágio ideal para ser plantada na cidade”, informa Teixeira.

O tempo pode parecer um exagero, mas é uma saída para minimizar a destruição das mudas nas vias urbanas. Uma lei municipal conhecida como deliberação normativa 69, de 30 de agosto de 2010, estabelece medidas mínimas para a arborização viária: altura mínima de 2,5 metros entre o solo e a primeira inserção de galhos, diâmetro do caule mínimo de 2,5 cm, medido a uma altura de 1,3 m da superfície do solo.

“Com essas medidas, o risco de perda da muda, por depredação ou por acidente, é menor. Ela já chega mais imponente e resistente ao meio urbano”, explica o engenheiro florestal.

Já o ciclo das plantas ornamentais no Jardim Botânico é bem menor. Em média, a permanência de uma muda por lá gira entre 60 e 120 dias. Lírios, Sálvia, Gazânia, Barba de Serpente, Grama Amendoim, Moreia e Camará são as mais comuns.

Principal produtor de mudas de Belo Horizonte, o Jardim Botânico respondeu por 36 mil das 54 mil mudas de árvores plantadas durante o programa municipal BH Mais Verde, de 2014. Atualmente, o estoque na seção é de 33 mil mudas de árvores, o que seria suficiente para suprir as demandas por pelo menos mais 18 meses. Já o de mudas de plantas ornamentais é de 25 mil, o que é considerado baixo e que pode se esgotar em poucos meses.

As nove regionais de Belo Horizonte (Barreiro, Centro-Sul, Leste, Nordeste, Noroeste, Norte, Oeste, Pampulha e Venda Nova) são atendidas pelo Jardim Botânico. Cada uma delas tem uma equipe técnica formada por engenheiros agrônomos, florestais, biólogos e botânicos.

“A região de maior demanda é a Pampulha”, diz Teixeira.

Foto Marcelo Machado
O engenheiro florestal Rodrigo Teixeira em meio à névoa de uma estufa de plantas ornamentais com irrigação automatizada

Redução de calor e combate a pernilongos
são alguns dos benefícios para a cidade

São muitos os serviços ecológicos prestados pelas árvores no meio urbano, além do resultado estético para o cenário da cidade e do conforto para a população.

“O principal efeito é a diminuição da onda de calor. Belo Horizonte foi muito afetada pelo clima, com as ilhas de calor causadas pela verticalização da cidade. As árvores reduzem enormemente a questão do aumento da temperatura”, afirma o biólogo Ricardo Motta, colunista do Viva Pampulha.

Motta explica que as árvores fazem parte do ecossistema urbano e trazem equilíbrio, contribuindo também para o fechamento do ciclo hídrico e para a manutenção da umidade relativa do ar.

“Nessa época de seca, fica claro essa baixa umidade, o que é uma consequência da impermeabilização do solo e diminui a evapotranspiração. As árvores contribuem para o conforto do clima, não apenas em termos de temperatura como também de umidade do ar.”

A evapotranspiração é a perda de água de uma comunidade ou ecossistema para a atmosfera, causada pela evaporação a partir do solo e pela transpiração das plantas.

Ainda segundo Motta, as árvores trazem vários organismos que são benéficos ao meio urbano, como uma série de pássaros e outros animais que podem combater os pernilongos:

“Atraem os polinizadores e os predadores de pernilongos. Além, é claro, do efeito estético e do conforto, pois torna o ambiente mais feliz e agradável para as pessoas transitarem, inclusive com mais sombra.”

Motta chama a atenção, porém, para a consciência cidadã e das organizações acerca do tema.

“Grande parte da nossa rede elétrica não é subterrânea, porque isso é caro. Mas o programa de poda da Cemig é equivocado. Vejo árvores aleijadas por toda a cidade. Isso tem de ser olhado”, alerta ele.

O biólogo lembra que a população também deve se responsabilizar pela manutenção das árvores e plantas existentes na cidade.

“As árvores precisam ser cuidadas pelo cidadão. Muitas vezes, as pessoas pavimentam em volta delas. A Fundação Zoo-Botânica faz um importante papel nesse sentido, disseminando o amor pela natureza e a educação ambiental.”

Por fim, Motta observa que, assim como os seres humanos, as árvores adoecem, têm problemas como cupins e pragas urbanas, e também causam transtornos.

“Muitas vezes, as árvores entopem redes de esgoto, crescem mais do que devem. Como as tempestades de verão estão ficando mais intensas, elas caem, podem ameaçar vidas. Por isso, o trabalho da assessoria botânica é importante, com a seleção das espécies certas para o convívio com o cidadão.”

Confira, abaixo, galeria de fotos.

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