Governo Bolsonaro: primeiras impressões!

Mais pelos deméritos dos grupos políticos tradicionais de esquerda, direita ou centro, do que pelos méritos do então candidato Jair Bolsonaro, seu sucesso no pleito eleitoral anterior e sua assunção ao poder (quase) máximo da República geraram muito mais dúvidas do que certezas, pois que:

i. era plausível que ele cumpriria, rapidamente, algumas de suas promessas de campanha, mais atraentes ao gosto de considerável parcela da população, que deseja menos Estado na economia e na vida privada das pessoas, inclusive com a ampliação das autorizações para porte de armas de fogo e;

ii. também era provável que trapalhadas e trombadas político-administrativas seriam inevitáveis, contudo e aqui as incertezas, só não se tinha noção da dimensão, dos autores (e co-autores) e das demais circunstâncias de tempo ou de modo desses imaginados tropeços na direção de algo monstruoso como a União Federal.

Discussões buscando a maximização da livre iniciativa e da tutela da propriedade ou do trabalho humano são sempre bem-vindas, como também não se pode negar valor ao debate relacionado à ampliação das hipóteses autorizadas de porte de armas de fogo. Porém, são temas político-eleitorais periféricos, servindo muito mais para a propaganda do novo governo, do que para o enfrentamento dos gravíssimos problemas de ordem econômica, financeira e fiscal por que passam quase todos os entes políticos da Federação.

Ninguém deveria se enganar e achar que a preferência por questões periféricas, muitas vezes tratadas por singelos decretos presidenciais, tal como aparentemente vem agindo o Presidente Jair Bolsonaro nesse início de mandato, teria a capacidade de afastar as pessoas de seu duro cotidiano de desemprego, de péssimos serviços públicos, de assaltos ou outros tipos de crimes violentos e por aí vai, visto que a ilusão é sempre provisória e dura até o dia em que a realidade se impõe.

Caso agora esteja aplaudindo a maior liberação da economia ou soltando foguetes pelo aumento das autorizações de porte de armas de fogo, daqui uns dias essa mesma pessoa estará jogando pedras (virtuais) nas redes sociais do Presidente e demais integrantes do governo federal, já que suas contas continuarão a fechar o mês no vermelho.

Essa preferência pelo periférico ideológico, inflado por intenções puramente moralistas, em detrimento do enfrentamento dos enormes desafios financeiros, econômicos e fiscais para a transformação do Estado brasileiro costuma acabar (muito) mal, mostra-nos a experiência político-institucional de nossa história mais recente:

i. o presidente Jânio Quadros chegou a Brasília, ainda um amontado de obras e de prédios inacabados, montado na vassourinha que marcou sua campanha para, de imediato, proibir brigas de galos e que as mulheres usassem biquínis nas praias brasileiras e;

ii. o presidente Fernando Collor de Mello, que aportou na capital federal 30 anos depois do vassourinha, dirigindo sua motoca ultra esportiva para liberar o comércio exterior, com a autorização de importação de bens de consumo, muitos deles de alto luxo como carros, bebidas alcóolicas mais raras e refinadas, roupas etc., até então perigosamente desejados pelos consumidores brasileiros, porque só acessíveis pela via do contrabando ou do descaminho.

Temas periféricos e muito mais atrelados a pautas políticas exageradamente ideológicas, não impediram que a precariedade social e econômica do país levasse ao enfraquecimento político-institucional daqueles personagens, os quais finalizaram seus mandatos de maneira incrivelmente patética e vergonhosa, Jânio Quadros ao apostar messianicamente que seria aclamado como ditador, depois de renunciar ao cargo de Presidente, ou Collor de Mello ao se deslumbrar pelo poder de Chefe da República, passando a agir não como um mandatário do povo, mas sim como um autêntico monarca absolutista.

Esses primeiros cinco meses do atual governo estão sendo marcados pelo improviso e amadorismo dos apoiadores do Presidente Bolsonaro, os quais agem feito boiada desgarrada, sem rumo e sem orientação, cada qual correndo na direção que cada um entende ser mais correta ou segura. Ter firmeza na defesa de convicções é inteligente, agora ofender ou tentar desqualificar convicções alheias é burrice, já que o confronto gera conflito e isso não é, nem de longe, o que o Brasil precisa, porquanto formado por um povo majoritariamente de boa-fé, honesto, trabalhador e desejoso de paz, harmonia e segurança (público e jurídica) para levar uma vida minimamente digna.

Muita dessa arrogância do confronto ou da bagunça que aí está, saí diretamente do círculo mais próximo do Presidente Bolsonaro, em especial pelas manifestações e articulações de seus filhos, todos parlamentares com votações espetaculares é certo, mas que até agora não conseguiram perceber que na República, não há espaço para príncipes, afinal papai não é rei, senão mais um dos centenas de milhares de servidores públicos a disposição da sociedade.

Os sinais não são nada bons e o problema, como diria meu amigo Piu Sabarense, é que no Brasil quando achamos que vai piorar, piora!

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