Herovilão

Em meus tempos de criança, costumava ir com frequência, quase sempre levado pelo Tio Galeno Marcos, a uma pequena fazenda de meu avô Antônio, situada lá pelas bandas de São Pedro Pescador, cidade pacata do interior mineiro localizada entre Teófilo Otoni e Governador Valadares.

Como toda criança (inocente), os filhotes da criação (bezerros, potros, pintinhos, patinhos, porquinhos e outros inhos) dominavam a atenção não só minha, como de meus irmãos, primos e da meninada dos vaqueiros e suas esposas.

Ali na roça, com luz de lamparina e geladeira de querosene, a mula da fazenda volta e meia surgia na pauta de nossos (inocentes) debates sobre a vida, pois ela se “enroscava” bastante, como as éguas da fazenda, com o Bolero, um meio-sangue mangalarga, grande corredor de vaquejada e principalmente inteiro, destinado à reprodução de potrinhos ou potrinhas para a lida diária.

Certa vez, durante os mais de 30 km de estrada (péssima) de terra da rodovia Rio-Bahia até a fazenda, comentei da mula com o Tio Galeno, tendo ele me explicado que ela não gerava filhote porque era filha da égua com o jegue.

Para mim foi uma surpresa e ao mesmo tempo uma decepção, pois imaginava que a mula era filha da égua, mas jamais do jegue e, pior, não acreditei quando percebi que o burro da fazenda era irmão da mula, afinal até então achava que ele era filho da própria mula.

Lembrei-me da mula e do burro ao observar os últimos lances da turbulência política que vem desconstruindo o Brasil há pelo menos dois anos seguidos. Esse ambiente turbinado pela radicalização da disputa política leva ao surgimento de grupos ideologicamente antagônicos, dispostos ao tudo ou nada, inclusive romper com relações pessoais, profissionais ou familiares antigas.

O quadro é, portanto, propício para o surgimento de “herovilões”, ou seja, personagens da cena política ao mesmo tempo heróis e vilões, um híbrido do bem com o mal, do paraíso com o inferno ou da honestidade com a desonestidade.

Para uma parte da população, os ex-presidentes Lula e Dilma são heróis da nação que sempre agiram em favor dos mais pobres, mas que acabaram sendo vítimas de golpes parlamentares ou das agências de Estado encarregadas da repressão criminal (Lavajato), arquitetados e patrocinados pela elite política e econômica preocupada em manter o status quo.

Outra parcela da sociedade pensa diferentemente, tratando o ex-deputado Eduardo Cunha como um verdadeiro herói do povo brasileiro, pela coragem demonstrada no combate travado com aqueles ex-mandatários da República, como que dando um basta no discurso bolivariano em terras brasileiras.

Para alegria de vários e a tristeza de outros tantos, virando a moeda há quem qualifique um ou outro personagem da política nacional como vilão, como os responsáveis diretos ou indiretos por boa parte das mazelas (sociais, econômicas, culturais etc.) vividas pelo povo brasileiro nos últimos tempos.

Da minha parte, não sei se é possível alguém ser ao mesmo tempo herói e vilão, honesto e desonesto, verdadeiro ou falso.

Fica, porém, a torcida para que, como a mula e o burro, um ou outro “herovilão”  não dê filhotinhos por aí!

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