Homenagem ao amigo que partiu

Há dois anos partia o meu amigo. Foi-se um dia após a eleição presidencial de 2014. Mas só há pouco recebi a triste notícia. Há tempos perdêramos contato.

Neste 30 de outubro eleitoral, caminho pela orla com os pensamentos voltados aos bons momentos  que passamos juntos.

O céu na Pampulha está cinzamente sóbrio e poético.

Talvez em homenagem ao meu amigo.

Era um senhor, uma figura quase paterna.

Culto, viajado, inteligente. Um erudito.

Linguista, dava-me aulas de inglês. Grande mestre.

Orgulhava-se do passado de campeão de caratê.

Amava Elvis Presley.

Passou os últimos anos cercado de natureza.

Vivia entre saguis, esquilos, maritacas, jacus…

Despertava bem cedinho entorpecido pela salada melódica do canto de canários,  sabiás e uma variedade quase infinita de passarinhos.

Era craque no bongô. Uma atração à parte no grupo musical que criara.

Ta-tum-ta, ta-ta-tum, tum-tum-ta… Pegada rítmica forte e imprevisível.

Improvisador nato.

Até na cozinha.

iPampulha

Talvez por isso fazia um cachorro-quente inigualável, de tempero único.

Tão único era o hot dog que até seu nome tinha. Era o Berardog.

Tenho saudade das longas conversas noite adentro em Macacos.

Conversávamos de tudo. Papos agradáveis regados a bons drinks com direito a petiscos preparados por ele e pela fiel esposa.

Madrugadas que eram embaladas por Elvis.

Meu amigo adorava cantarolar, fazendo coro ao Rei.

Aaaahh… Bons tempos, bons tempos…

Pena que a correria do dia-a-dia nos distanciou.

A correria. Sempre botamos a culpa nela.

Tão fácil culpar, não é mesmo? Algo ou alguém.

O fato é que o contato esvaiu-se ao longo dos quase cinco anos que passei longe de Belo Horizonte.

E tudo virou saudade.

Até que, dias atrás, ao perguntar pelo amigo a um conhecido, tomei ciência de que havia partido.

Chorei por dentro sem derramar lágrima alguma.

Chorei por não tê-lo visto nos últimos dez anos.

Por não ter conversado mais com ele. Por não ter ouvido mais Elvis ao lado dele.

O Berardog virou apenas memória olfativa.

O bongô silenciou-se.

No more class.

Descanse em paz, amigo Berardo Nunan.

468 ad