Linda história de amor

A mais linda história de amor é contada todas as manhãs por passos cadenciados pela sabedoria, pela leveza do andar desapressadamente romântico, em meio ao vai e vem de trotes e corridas na orla da Lagoa da Pampulha.

Lado a lado, ora de mãos dadas ora conectados pela alma e pelo coração, Abílio, de 93 anos, e Maria Terezinha, 85, desfilam a plenitude da harmonia, fazendo da pista de caminhada a passarela de um love story digno das telonas.

“Ele é muito romântico. Um marido excelente. Adoro! Adoro o meu marido!”

“Eu também te adoro.”

Em seguida, o beijo.

Tão cinematográfico como os de Clark Gable e Vivian Leigh, Burt Lancaster e Debora Kerr, Humphrey Bogart e Ingrid Bergman – ou Lauren Bacall.

Não poderia haver cenário mais perfeito. Ao fundo, a Lagoa, a Igrejinha, a roda-gigante… Roda viva, vivíssima, de quem viu a Pampulha nascer pela ousadia de JK e pelos traços sinuosamente geniais de um tal Oscar Niemeyer.

“Juscelino era um homem maravilhoso. Um pé de valsa. Dançava gafieira também. Era um homem que vivia no meio do povo”, diz o senhor Abílio.

Ele e ela são testemunhas do gingado elegante de JK e do surgimento da Pampulha.

“Quando nós nos casamos, nossa lua-de-mel foi aqui. (A lagoa) era limpinha. Andamos de barco, lembra-se?”, ela pergunta.

Ele faz que sim com a cabeça.

A julgar pela sintonia e a feição amorosa que um exibe ao outro a cada palavra, a cada gesto, a cada olhar, parece que o 20 de julho de 1949, o dia do casamento, foi ontem, há apenas algumas horas.

São dois anos de namoro mais 67 anos de casamento.

São 69 anos de amor.

Oito filhos, 17 netos, dez bisnetos.

“Graças a Deus, todos os filhos estão vivos e moram na Pampulha”, celebra ela, pontuando apenas que uma filha vive na Suíça.

A elegância de quase 70 anos de amor: oito filhos, 17 netos e dez bisnetos
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Para estar sempre à altura da eterna princesa, Abílio veste-se impecavelmente para as caminhadas diárias de dois quilômetros, geralmente percorridos no prazo de uma hora. De camisa e calça sociais, ele permite-se apenas substituir o sapato pelo tênis, o que é perfeitamente compreensível.

A pista da boa forma é movimentada nas manhãs, mais ainda aos fins de semana. Uns passam correndo, outros caminhando a passos firmes. De um jeito ou outro, é impossível não notar o casal que traz brilho próprio por onde passa.

“Alguns até nos abraçam”, conta Maria Terezinha.

“Não sabemos o nome de um ou outro, mas ficamos amigos de muitos por aqui”, completa ele, sorrindo.

O casal que frequenta a Pampulha desde sempre e vive no bairro São Luiz há 40 anos descobriu a caminhada há dez.

“Caminhar faz muito bem para saúde. Principalmente para velho”, observa Abílio.

Mas o segredo da longevidade com saúde, para ele, vai além.

“Muito trabalho”, sentencia, do alto da razão de quem se fez um bem sucedido empresário e gerador de empregos – e, sobretudo,  um exemplar pai de família.

Mãos dadas, caminhadas diárias de 2Km em uma hora
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Dos tempos de JK aos dias de hoje, o que chama mais a atenção deles na Pampulha é a sujeira na orla, ainda mais neste período chuvoso.

“Está horrível”, lamenta ela.

“Muito suja”, completa ele.

Mas o amor permanece. Entre eles, pela Pampulha, por Belo Horizonte.

“Belo Horizonte era uma cidade pequena, nova. Vimos isso aqui se transformar numa grande capital. Mas, apesar desse crescimento, é uma cidade que ainda tem um povo amistoso e unido. A nossa cultura não mudou”, avalia Abílio. “Belo Horizonte é a melhor capital para se viver”, conclui.

“Desejo ao povo de BH que tenha mais união e paz”, diz ele.

“Eu também”, emenda ela.

Assim seja.

Amor na Pampulha: da lua de mel, em 1949, aos dias de hoje
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