Lixo sem fim

Entre cadáveres humanos e de animais como cavalo, gado, cães e gatos, além de objetos como sofás, computadores, aparelhos de TV e de uma infinidade de materiais plásticos, aproximadamente 131 toneladas de lixo são retiradas por mês da Lagoa da Pampulha. A informação é da Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap), autarquia da prefeitura de Belo Horizonte que faz o controle estatístico do trabalho.

O número é uma média do levantamento consolidado de 2015 e do parcial deste ano, entre janeiro e agosto, ao qual o Viva Pampulha teve acesso. Seria como retirar o equivalente a quase 30 milhões de garrafas pet de 2 litros, vazias, ao longo de um ano. O peso corresponde também ao de quase 400 elefantes asiáticos.

“As pessoas acham que o leito da água é feito para levar embora as mazelas delas”, tenta definir Marcio Lima, coordenador de controle ambiental do Propam (Programa de Recuperação e Desenvolvimento Ambiental da Bacia da Pampulha), entidade vinculada à secretaria municipal de meio ambiente.

Apesar do tom áspero, Lima guarda um mea culpa pela incapacidade do poder público de implementar ações educativas e acompanhar a demanda ambiental frente à falta de cidadania e ao descarte inadequado de parte da população. “O processo educativo e as estratégias públicas estão aquém do processo contínuo de adensamento populacional no mesmo espaço”, admite ele.

Cerca de 450 mil pessoas vivem na área que compreende os 97 quilômetros quadrados da bacia hidrográfica da Pampulha, composta por 40 córregos. Vinte e um deles  encontram-se em Contagem e 19 em Belo Horizonte. Oito desaguam diretamente na Lagoa da Pampulha: Sarandi, Ressaca, Bom Jesus, Mergulhão, Tijuco, Braúnas, AABB e Olhos D’água.

Os que causam maior impacto à lagoa são o Sarandi e o Ressaca. Juntos, os dois respondem por praticamente 80% do volume de água que deságua nela. A maior parte dos resíduos que provocam o assoreamento dela também é oriunda deles. Vale um registro: dos anos 1930 até hoje, a capacidade de armanezamento de água da Lagoa caiu 50%: de 18 para 9 milhões de metros cúbicos.

“As pessoas jogam de tudo nos córregos e na lagoa, e acham isso normal. Pensam que é nossa obrigação limpar”, afirma, resignado, Hamilton Latorre, engenheiro da Sudecap responsável por gerenciar a manutenção da orla da Pampulha.

Metade do time é composta pelo quarteto do barco: Rogenildo (vermelho) e Alberto à frente; Jeferson (boné) e  Kesley ao fundo
Metade do time é composta pelo quarteto do barco: Rogenildo (vermelho) e Alberto à frente; Jeferson (boné) e Kesley ao fundo

Hamilton está há quase dez anos na função. Ele comanda um time de 28 pessoas, na maioria funcionários terceirizados de uma empresa que recebe mensalmente da prefeitura em torno de R$ 140 mil pelo serviço de limpeza da lagoa e da margem limitada pelo calçadão. A base é a chamada Casa Verde, situada em uma ponta do Parque Ecológico.

Parte da equipe é formada pelo grupo da água. São oito integrantes divididos entre o time da balsa (Marcelo, Marciano, Marcio e Leanderson) e o do barco (Alberto, Kesley, Jeferson e Rogenildo). Ambas as embarcações apresentam uma aparência sucateada e têm um motor Yamaha de 25 cavalos. Grosso modo, são como dois fusquinhas “lenhados”.

A reportagem do Viva Pampulha acompanhou uma manhã de trabalho dos funcionários que atuam no barco (confira reportagem em vídeo logo abaixo). Assim como o quarteto da balsa, eles partem da base entre 7h30 e 8h para o primeiro tempo da faxina aquática. Retornam antes das 11h para o almoço, dando sequência à limpeza no período da tarde e encerrando o trabalho até as 17h.

Cada embarcação faz, em média, três viagens por dia, recolhendo o lixo e voltando para descartá-lo na base. Ambas têm uma caçamba com capacidade para mil litros de resíduos, mas a balsa tem uma superfície maior e pode transportar um volume superior, fora do recipiente.

“Em época de chuva a gente enche facilmente três caçambas dessa por dia”, afirma Alberto, o mais experiente do time do barco, há três anos já na função.

A sensação é de que os garis da água estão “enxugando gelo”, tamanha a precariedade com a qual trabalham frente ao surreal volume de lixo na lagoa, retirando muitas vezes de forma arcaica, objeto por objeto, com uma espécie de ancinho que eles chamam de “garfo”.

Na área de um dos canais que recebem a água dos córregos Sarandi e Ressaca, o cenário é impressionante. Há um rastro sem fim de todo tipo de resíduos na superfície. E nem estamos em época de chuva, período em que o volume aumenta de forma exponencial.

“Estamos lutando há tempos contra esse lixo do canal. A gente tira, tira, tira, mas nunca acaba. Sempre aparece mais vindo do fundo”, conta Alberto.

Por não estar muito à vista da população, o lixo acumulado no canal não é prioridade em meio à alta demanda. Por orientação, as áreas mais nobres e visíveis ao público, como as que ficam próximas da Igrejinha e do Mineirão, merecem uma maior atenção. Questão de maquiagem turística.

Defunto e futebol

Alberto já viu de tudo na lagoa. Animais mortos como cães e gatos são frequentes, todo dia tem. Vacas e cavalos também aparecem rotineiramente.

“A gente acha defunto também. Quase todo mês”, relata Alberto.

Pelo controle estatístico, Hamilton Latorre informa que, em média, oito cadáveres humanos são encontrados por ano na lagoa. Quando isso acontece, a guarda municipal e a polícia militar são acionadas para fazerem a retirada e a ocorrência.

Sofás, computadores e aparelhos de TV são figurinhas fáceis. Vez por outra, camas, tanquinhos de lavar roupa e até chassis de moto. Já os lixos “campeões” são os plásticos, como garrafas e sacolas.

Há também objetos que acabam se tornando um “presente” para os garis, como bolas de futebol.

“Bola tem toda semana. Quando chove, descem muitas lá da Toca da Raposa, umas 20, pelo menos. Também já achamos uma bicicleta em perfeito estado, só com os pneus furados, e tênis novos de marcas como Nike e Mizuno”, conta Alberto.

Confira, abaixo, galeria de fotos. 


Solução passa por política
consistente de educação ambiental 

Para o coordenador de controle ambiental do Propam, a solução virá apenas a médio e longo prazo, isso se houver investimento crescente e sistemático em educação e em diversas estratégias públicas de tratamento de resíduos sólidos.

“Ainda mais agora que a Pampulha entrou para o grupo de patrimônio cultural da humanidade (da Unesco), essa questão da limpeza se tornou obrigação, é um caminho sem volta. É preciso investir na educação ambiental, que deve começar nas escolas, com as crianças. Deve ser um trabalho constante e transversal, ou seja, envolvendo todas as disciplinas”, aponta Marcio Lima.

Paralelamente, a prefeitura, por meio de autarquias e outros entes,  e em parceria com grupos privados e a sociedade civil, devem seguir desenvolvendo ações de conscientização ambiental e de contenção de resíduos com diversos públicos.

Isso já ocorre, por exemplo, com os carroceiros, a fim de combater o descarte inadequado e incentivar a reciclagem. As Unidades de Recebimento de Pequenos Volumes (URPVs) são outra iniciativa. As URPVs são equipamentos públicos destinados a receber materiais como entulho, resíduos de poda, pneus, colchões e móveis velhos, até o limite diário de 1m³ por gerador.

A população, informa a prefeitura, pode entregar o material gratuitamente nesses locais ou contratar um carroceiro credenciado para buscá-lo. As URPVs não recebem lixo doméstico, lixo de sacolão, eletroeletrônicos defeituosos, resíduos industriais ou de serviços de saúde, nem animais mortos.

O material recebido nas URPVs é separado em caçambas e recolhido regularmente pela prefeitura. Após a triagem, os rejeitos vão para o aterro sanitário e o entulho para uma das Estações de Reciclagem de Entulho, onde é transformado em agregado reciclado, que pode novamente ser reintroduzido na cadeia da construção civil.

A população pode entregar seus resíduos de construção civil em uma das URPVs existentes em Belo Horizonte. Esse transporte pode ser feito também pelos carroceiros cadastrados e qualificados pela SLU para práticas ambientalmente corretas.

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