Meu escritório é na Lagoa (e o do urubu também!)

Minhas caminhadas começam sempre que chego à orla e parto da Igrejinha.

Mas ligo o meu radar desde o momento em que saio do carro na rua detrás do Parquinho Guanabara.

“É uma saída. Na próxima eleição eu vou me candidatar a vereador”

“Eu também”

Este foi o primeiro diálogo que ouvi neste domingo 2 de outubro. Era a conversa de  dois jovens ambulantes que trabalham numa barraquinha perto do Parquinho.

Parto da Igrejinha às 10h30.

Costumo dizer que meu escritório é na Lagoa.

Mas tal privilégio está longe de ser exclusivo.

Logo percebo que o senhor urubu também faz plantão no pedaço.

Na saída de esgoto do Córrejo Tijuco, lá está ele degustando um peixinho.

Um garotinho que passa com o pai pelo local faz ânsia de vômito ao sentir o cheiro ruim no referido trecho. O pai tenta tranquilizá-lo.

A Copasa promete chegar a 90% de interceptação do esgoto na Pampulha até o fim deste ano. E planeja atingir 95% até o meio de 2017.

Estamos na torcida!

Mas é preciso verificar esses vazamentos recorrentes que saem das profundezas da Avenida Fleming e adentram a Lagoa pela saída do Tijuco.

Caminhada que segue, percebo, com espanto, duas carpas enormes boiando na Lagoa. Mortinhas da Silva. Devem pesar uns quatro quilos, cada uma.

peixe, lagoa

Sorte do senhor urubu. Com certeza, estava só no aperitivo. Só não vai poder tomar uma porque hoje é domingo de eleição e Lei Seca.

Dois senhores vêm de lá num trote moderado. Trotando e proseando.

Nesse momento, flagro uma cena escatologicamente incrível.

Um dos coroas prepara uma cusparada e manda bala.

Não viu que um jovem vinha correndo por fora e… Splasssshhhhhh!!!

“Nossa… Me desculpa, não tinha visto você…”

O carinha passa correndo, balançando a cabeça e abanando os braços em tom de reprovação.

O coroa reage.

“Mas não pegou em você, porque vi que não pegou”

(…)

Lá vem uma bonita família pedalando vagarosamente em fila indiana.

A adolescente tem visual roqueiro, um belo cabelo e veste uma camisa do Foo Fighters.

Ela não percebe que o irmãozinho pirralho dela está freando.

E a bicicleta dela bate levemente na traseira da dele.

“Owwwwww, vê se avisa!!!!”, reclama a punkzinha de boutique.

Calma, pessoal.

Faço o meia-volta volver no Parque Ecológico.

Olho para a margem e vejo uma garça.

Mais adiante, uma reunião de patinhos pretos.

Um pouco mais à frente, quatro pés são a prova provada de que há uma cadeira branca parcialmente submersa.

Assim é a Pampulha, esta obra genial que, por ignorância de muitos, às vezes apresenta-se de ponta-cabeça.

cadeira, lagoa

Estou chegando ao fim de mais uma caminhada dominical.

Vejo  que as carpas mortas estão cada vez mais próximas da margem.

E, claro, o senhor urubu está no escritório dele, de plantão, à espera do banquete.

Hoje é dia de eleição.

Hoje é dia do banquete dos urubus…

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