Nossa Senhora, parte II

Quatro meses atrás, logo após planejar uma volta completa em torno da Lagoa da Pampulha como uma espécie de manifesto contra a poluição (confira a primeira parte da história), Andrea começou a juntar lixo para adornar o vestido que vestiria no dia da performance.

A microvaranda da quitinete de 32 metros quadrados, na Moradia Universitária I da UFMG, no bairro Ouro Preto, tornou-se o ateliê e o depósito no qual a estudante intercambista de artes visuais acomodava todos os resíduos.

Entre os materiais, destaque para garrafas plásticas de Catuaba, muitas delas recolhidas de festas que ocorriam na própria moradia. “Achava legal pegar as garrafas porque cada uma delas tinha a história de uma pessoa bêbada”, diz a estudante colombiana, às gargalhadas.

Quem não estava gostando muito da ideia era a boliviana Edith, estudante de engenharia que dividia a quitinete com Andrea. A gota d’água que entornou o caldo caiu num dia em que a artista chegou em casa com uma grande caixa com garrafas.

“Três baratas saíram da caixa. A Edith ficou doida. Tivemos uma briga feia. A confusão terminou na administração da Moradia”, conta a colombiana, esboçando um sorriso moleque.

No fim das contas, Edith migrou para outra unidade, e Andrea ganhou a companhia da compatriota Yesica, também estudante de artes visuais. A nova colega de quitinete entrou na onda e passou até a levar lixo para ajudar no projeto.

“Um dia ela me trouxe um pedaço de computador que achou na rua. Adorei!”, diverte-se Andrea.

Parede decorada na quitinete  de Andrea na Moradia da UFMG
Parede decorada na quitinete de Andrea na Moradia da UFMG

A colombiana ganhou do amigo brasileiro André, estudante de História na UFMG, o vestido azul e preto que serviria de base para o trabalho. Ela o pintou com tinta preta, bem como todo o lixo que o completaria.

“É uma cor impactante, que usamos quando vamos a um enterro. É uma cor triste. Este é o significado dado pela sociedade. Porque é uma cor que não tem luz. Minha escolha foi uma coisa mais relacionada ao ritualismo, de usar o preto para ir a um velório, a um enterro”, explica, completando que os belorizontinos precisam cuidar da Lagoa da Pampulha. “É um lugar bonito que poderá, futuramente, nem existir, se continuar recebendo tanto lixo e poluição.”

Andrea levou quatro meses para deixar o vestido pronto e adornado com tampinhas,100 garrafas plásticas, dez latas de cerveja, cinco latas de tinta modelo spray, uma bola, um par de sapatos, pedaço de computador e caixas de ovos, além de caixas de leite e de suco recortadas.

O vestido ficou curto na frente e longo atrás, com direito a uma cauda digna de um vestido de noiva. “É o meu casamento. Vou me casar de preto com um vestido de lixo na lagoa”, brincava Andrea com os amigos, numa referência aos ensaios fotográficos de noivos que costumeiramente ocorrem em volta da Lagoa.

No dia 4 de dezembro, a colombiana decidiu dar uma volta completa na Lagoa, como teste e preparação para o grande dia que ocorreria uma semana depois. A amiga Yesica a acompanhou.

“Queria fazer uma preparação psicológica e física, até para saber se o pé iria resistir”, conta ela.

Andrea estava acostumada a pedalar de cinco a dez quilômetros pela orla, mas não a caminhar 18 quilômetros de pés no chão, descalça. “Queria sentir a textura do piso, saber como seria a comunicação da pista com o corpo”, explica, quase que poeticamente.

Andrea atrás do vestido de lixo na varanda da quitinete
Andrea atrás do vestido de lixo na varanda da quitinete

Já era fim de tarde quando ela e Yesica partiram da Nova Praça da Pampulha, sentido Parque Ecológico. Não sem antes consumirem açaí e pão de queijo. “E comemos também umas mangas que pegamos dos pés pelo caminho.”

Uma chuva torrencial caiu ao longo de boa parte da caminhada.

“Já era noite, esfriou. Foi uma chuva horrível, uma tormenta. Os carros passavam, muitos buzinavam, alguns até paravam. Eram duas mulheres caminhando na chuva. Devem ter pensado que éramos prostitutas. Estava perigoso”, relata.

Um motorista foi e voltou três vezes. Insistiu. Receosas, Andrea e Yesica chegaram até a pensar em pegar pedras do chão para se proteger. Mas ele se foi. Depois, um morador de rua passou a acompanhá-las. Elas apressaram o passo.

“Não tenho preconceito, mas ele estava drogado. Além disso, não era o momento de falar com ele. Eu estava ali com um propósito e já muita cansada àquela altura”.

Em meio ao temporal, Andrea observou que a água da chuva que caía na rua acabava na lagoa, carreando todo o lixo do entorno para o espelho d’água.

Viram um casal transando em um carro, passaram por uma mansão na qual uma festa de arromba acontecia. Tiveram até vontade de pular o muro.

“A estrutura das casas na Pampulha é quase padrão. Nunca consigo ver as pessoas nas casas. É uma estrutura que esconde a gente que vive lá”, comenta.

Nas proximidades do Iate Clube, já exaustas, elas acabaram aceitando a carona de um rapaz que insistiu por pelo menos dez minutos. O cansaço superou o receio. Com cara de 30 anos e sozinho no carro, ele ouvia funk em alto volume.

A colombiana na orla da Pampulha
A colombiana na orla da Pampulha

“Nos deixou em casa, mas queria nos levar a uma festa de funk. Não quisemos ir. Foi engraçado… Se a gente encontra meninos molhada e feia, imagina arrumada.”

Teste realizado, Andrea se sentiu confiante para a performance de 11 de dezembro. O amigo e designer gráfico colombiano Mauricio Vides, morador de Barranquilla, fez a peça publicitária publicada no Facebook e endereçada como convite eletrônico a 500 pessoas.

“Queria que tivesse mais galera na procissão. Queria ser a Nossa Senhora com a galera vindo atrás”, diz Andrea.

Nossa Senhora. Este é o título da performance. Curiosamente, a artista afirma não ter religião alguma.

“Nossa Senhora é a primeira expressão que ouvi no Brasil”, justifica ela.

A ceia na noite de véspera foi caprichada na Moradia. Andrea dormiu cedo para se poupar. Na manhã de domingo, porém, não comeu bem. Estava ansiosa, nervosa.

Pintou-se toda de preto e colocou o vestido de lixo pela primeira vez. Só aí foi notar que ele pesava mais de 20 quilos. “Muito pesado!”, constatou.

Andrea se pinta de preto e se prepara para a performance de 18 quilômetros em torno da lagoa
Andrea se pinta de preto e se prepara para a performance de 18 quilômetros em torno da lagoa

“Está segura do que vai fazer?”, perguntou Yesica.

“Planejei, vou fazer. Quero muito”, respondeu Andrea.

“Faça com sapato”, recomendou a amiga.

“Não”, enfatizou a artista.

Andrea queria fazer uma performance marcada pelo realismo:

“Eu queria mesmo fazer um personagem, sentir dor com os pés em contato na natureza. Queria mesmo mexer com o sol, entrar num personagem que está ali em uma procissão, sentindo alguma coisa. Não queria um desfile bonitinho. Queria andar, cansativa. Não queria nem comer nem beber água. Queria levar muito a sério o ritual de dor”.

Um estafe de amigos iria acompanhá-la para registrar a performance com fotografias e gravação de imagens. “O que fica da performance é o registro”.

Por volta de meio-dia e meia, ela partiu da Moradia, rompendo a avenida Fleming e passando pela Igrejinha da Pampulha por volta de 12h45. A essa altura, já era o centro das atenções, atraindo olhares de todos que por ali estavam. (Confira vídeo da performance, abaixo)

“Estava me sentindo esquisita, na verdade. Foi duro no início. Não era insegurança, era ansiedade. Estava muito dentro do personagem”

Não demorou muito para começar a ouvir gritos de “parabéns!” e outras manifestações de apoio. Alguns carros que passavam faziam o retorno para tirar foto. Muitos bzinavam.

“Quase todo mundo me percebia. Então senti o apoio das pessoas. Vi que a mensagem estava chegando a elas.”

Entre as muitas reações diferentes, o medo de algumas crianças. Era até comum ouvir um “Nossa Senhora” aqui e ali.

“Muitos falavam, assustados, Nossa Senhora, Nossa Senhora… Eu achava legal demais”, vibra a artista.

Algumas pessoas queriam falar com Andrea, mas ela estava concentrada na performance. Um ciclista a acompanhou na maior parte do trajeto.

“Ei, como é seu nome, menina? Por que está fazendo isso? É artista? Posso acompanhar você? Nossa, menina, você é maravilhosa. Quero ser seu amigo”, tagarelava ele, pedalando ao lado dela.

Os quilômetros finais foram uma tortura para Andrea. A amiga Laura fazia fotos, vídeos e dava água para Andrea. O amigo Zuba gravava vídeos. Bruna jogava água pelo caminho para refrescar os pés da artista. E o espanhol Martín cantava reggaeton para animá-la:

“Si necesita reggaeton dale / Sigue bailando mami no pare”

Como Nossa Senhora, Andrea passa pela Casa do Baile
Como Nossa Senhora, Andrea passa pela Casa do Baile

A essa altura, esgotada e com expressão de fúria no rosto, sentindo muita dor nos pés, Andrea evitava o asfalto e procurava caminhar em áreas gramadas.

“Está terminando, está terminando”, gritavam os amigos.

Seis horas de caminhada depois, ela chegou à Nova Praça da Pampulha.

“Voltei a renascer. Já não podia mais, estava no automático. Não estava sentindo nada, não estava olhando ninguém.”

Festejada por todos na Moradia, ela deu conta dos “estragos” somente ao tomar banho.

“Fiquei com queimaduras no rosto, bolhas nos pés, feridas na cintura e no pescoço.”

Passou dois dias de cama e mais de uma semana com bolhas nos pés. Andrea ainda segue passando creme nas feridas e queimaduras.

Mas está muito feliz com a primeira performance da carreira.

“Não é só a questão do lixo. Por meio da arte você pode provocar mudanças, pode mudar o pensamento de uma pessoa. Até de quem não sabe o que é uma peformance. Significa algo, significa muito. Por isso decidi fazer algo em um espaço público. Porque poderia fazer um quadro e colocar numa galeria. Mas eu queria que a galera observasse tudo isso.”

Parabéns, Andrea!

Belo Horizonte deve gratidão a você.

E Viva Pampulha!

Crédito fotos e vídeo: Laura Palmieri e Zuba O Uba

Edição vídeo: Marcelo Machado

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