Nossa Senhora

Imponentemente surrealista, a figura feminina que parece extraída de uma densa viagem de David Lynch ou, quem sabe, do mundo quase sempre fantasioso de Tim Burton, caminha pela orla da Lagoa da Pampulha em um domingo de dezembro sob o sol de uma da tarde. Ela tem toda a pele tingida de negro, assim como o vestido adornado de resíduos diversos como garrafas plásticas, tampinhas, caixas de leite, caixas de ovos e até pedaços de computador.

A impactante cena causa reações distintas ao longo do trajeto de 18 quilômetros em torno da lagoa. Entre buzinas, gritos de parabéns e perplexidade geral, a ‘aparição’ de Nossa Senhora é assustadora principalmente para as crianças. Uma delas se sente aterrorizada e corre para se esconder entre as pernas do pai. Outras tentam entender o que está se passando.

“É o espírito da lagoa. Se você jogar lixo nela, o espírito vai aparecer para roubar a sua alma”, explica às crianças Martin, o espanhol que acompanha a procissão.

Por trás da fantástica aparência está Andrea Verbel Vanegas, uma colombiana de 21 anos nascida em Barranquilla, uma cidade de porte semelhante ao de Belo Horizonte, com 2,1 milhões de habitantes, localizada no norte do país em uma região conhecida como Costa Caribe. É a cidade natal da estrela pop internacional Shakira, mas pode se gabar também de ter servido como lar para o escritor Gabriel Garcia Marquez, que por lá viveu na infância e na juventude.

Andrea durante a performance que impactou a Pampulha
Andrea durante a performance que impactou a Pampulha

De beleza tipicamente mestiça e estilo mignon, a estudante formanda de artes plásticas na Universidad del Atlántico Facultad de Bellas Artes, em Barranquilla, é intercambista há cinco meses de artes visuais da Escola de Belas-Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O foco do intercâmbio dela é uma pesquisa de conclusão de curso voltada tanto para a adaptação de uma estrangeira em uma terra estranha quanto para as impressões dela própria sobre este novo lar.

“É a experiência de uma colombiana vivendo no Brasil. Me sentia como um ser animal que trocou tudo… De pensamento, de habitat, de comida, de alimentação. Comecei a pesquisar a minha pessoa em Belo Horizonte”.

A primeira barreira foi idiomática. Andrea não falava nem entendia o português no início do intercâmbio. Comunicava-se mais por sinais e mímicas. Sentia até dor de cabeça ao fim de cada dia marcado pelo extenuante processo de comunicação não verbal, embora até gostasse da situação, até porque o jeito mineiro solícito de ser ajudava, e muito.

“Adorava porque as pessoas não ficavam felizes enquanto não encontravam uma solução para o meu problema na rua, quando eu precisava de informação. Só ficavam tranquilas quando resolviam, nem que tivessem de perguntar a uma outra pessoa. Isso me deixava mais segura”.

De alma praiana, Andrea se integrou facilmente ao ambiente da Pampulha
De alma praiana, Andrea se integrou facilmente ao ambiente da Pampulha

Andrea tem espírito praiano. Nunca faltou água à sua volta. Por Barranquilla passa o Magdalena, o principal rio da Colômbia, que nasce no sudoeste do país e deságua no mar do Caribe após um curso de 1.543 quilômetros de extensão. Pela rodovia 90A, os barranquilleros chegam em 45 minutos, de carro, a Puerto Colombia, a cidade litorânea mais próxima no Pacífico. Isso explica a relação praticamente mística dela com a água.

“Preciso ter água por perto. É para a limpeza de espírito, é muito importante para mim. Creio ser necessário um lugar sagrado assim, com água, para as pessoas”.

Não por acaso, a habitante da Moradia Universitária I da UFMG, na avenida Fleming, no bairro Ouro Preto, identificou-se de pronto com a Pampulha. Embora tenha observado inicialmente a região da orla como uma área costeira artificial, percebeu logo nela o refúgio e local preferido em Belo Horizonte.

“É um lugar necessário para as pessoas respirarem. É tão grande… E cada lugar é importante para uma galera diferente”, constata ela.

A sensível observação de Andrea capta a rica variedade de cenários, personagens e situações no entorno da lagoa. Playboys sem camisa correm preocupados em manter a saúde e o ego inflado. Passam ciclistas, a prosa descontraída de caminhantes, a sinergia (ou não) de casais. A diversidade está ali e atinge níveis impensáveis de curiosidade.

Em um certo dia, ela e uma amiga estavam a pedalar pela orla quando passaram a observar adeptos do Candomblé nas proximidades da estátua de Iemanjá. Foram convidadas a participar da reunião. Mais inusitada que a experiência de vivenciar um culto de uma religião de matriz africana no Brasil foi a cena que ela e a amiga testemunharam meia hora depois.

Diversidade é a marca da Pampulha, diz Andrea
Diversidade é a marca da Pampulha, diz Andrea

“Depois que o pessoal do Candomblé foi embora, um morador de rua comeu as oferendas deixadas por eles. Tinha arroz, mandioca, pipoca… Tudo isso adornado com velas. Achei massa. Foi um acontecimento religioso que serviu como uma contribuição para um morador de rua (risos). Foi muito doido”, diverte-se ela.

Aliás, por falar em comida, a colombiana aprovou a culinária mineira, principalmene o feijão tropeiro e o pão de queijo. Mas não deixou de observar que a cultura alimentar de boa parte dos belorizontinos vem sucumbindo frente à rotina corrida do dia a dia.

“A alimentação do mineiro é muito artificial. Estou acostumada a tomar suco natural pelo menos três vezes ao dia… De manhã, de tarde, de noite… Aqui tenho de tomar suco de caixa todo dia, não gosto… Não tem liquidificador n a moradia”, lamenta ela.

Sentada em um banco próximo à Igrejinha enquanto conversa com o Viva Pampulha, Andrea permite que uma formiga saúva passeie tranquilamente pelo braço dela. O inseto parece sentir-se à vontade, em profunda conexão com ela. Tanto que sobe para a cabeça da colombiana e põe-se a fazer uma jornada de prospecção pelos cabelos negros de origem afroindígena enfeitados pelo lenço bege de tema floral.

Com o olhar inicial de turista, Andrea chegou a se maravilhar com a lagoa e o conjunto moderno arquitetônico de Oscar Niemeyer. Tal percepção logo deu lugar a outra, de viés mais crítico e focada no comportamento humano e nas consequências dele ao local.

Uma das situações que chamaram a atenção dela foi a pressa de motoristas pela orla, o que observou como praticamente uma regra. Poucos, segundo ela, param para dar prioridade aos pedestres em passagens como as situadas na área da Nova Praça da Pampulha e do Parque Guanabara.

“Não sei se é elitismo, mas a galera que anda de carro não respeita quem anda a pé. É tipo assim: ‘o meu tempo, minha vida. Vou rápido. Não vou parar porque uma pessoa está ali, não importa quem esteja.’ São pessoas metidas num mundo próprio e que não estão pensando nas demais. Acho isso muito ruim”, opina.

Como estudante de artes plásticas, Andrea percebeu que os problemas e dilemas atuais de Belo Horizonte não estão devidamente representados por trabalhos artísticos nos museus e espaços culturais da capital, sobretudo nos da orla, como a Casa do Baile e o Museu de Arte.

Colombiana critica os motoristas apressados da orla
Colombiana critica os motoristas apressados da orla

“Vou aos museus e vejo coisas turísticas. Não vemos neles a produção local, de estudantes, de obras que estão retratando o momento da cidade. Onde estão os artistas que estão fazendo coisas sobre as problemáticas que Belo Horizonte vem tendo? O que melhor para ter nos museus do que os trabalhos dos próprios belorizontinos? É preciso aproveitar melhor essas pessoas que estão recebendo uma educação muito massa e têm trabalhos de arte bem interessantes”, critica.

Obviamente que uma clássica mancha na imagem da Pampulha não passou despercebida pelo olhar de Andrea – o lixo e a poluição, que vem se tornando como algo já inerente à lagoa, não apenas pelo histórico de falta de educação ambiental de parte dos 500 mil habitantes da bacia hidrográfica como também pelo descaso e a incompetência da gestão pública nas últimas décadas.

“Comecei a sentir saudade da praia e a frequentar muito a orla da Pampulha. Percebi problemas na forma como as coisas estão organizadas aqui… O mau cheiro. Surpreendo-me ao ver que as pessoas agem normalmente no entorno da lagoa, mesmo com o mau cheiro. Parece que está tudo normal. Há o mau cheiro ali, mas não importa. As pessoas estão trotando, andando, fazendo exercício”, diz, incomodada pelo conformismo e pela falta de mobilização dos belorizontinos.

Inconformismo de Andrea com lixo coletado na orla
Inconformismo de Andrea com lixo coletado na orla

Conforme registrado na reportagem Lixo sem fim, cerca de 1500 toneladas de lixo são retiradas anualmente da Lagoa da Pampulha. A informação é da Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap), autarquia da prefeitura de Belo Horizonte que faz o controle estatístico do trabalho.

A maior parte dos resíduos chega à lagoa por meio dos oito tributários que nela desaguam. Os dois são maiores são os córregos Ressaca e Sarandi, responsáveis por 80% do volume de água que entra.

Dá de tudo entre os resíduos: cadáveres humanos e de animais como cavalo, gado, cães e gatos, além de objetos como sofás, computadores, aparelhos de TV e uma infinidade de materiais plásticos.

Seria como retirar o equivalente a quase 30 milhões de garrafas pet de 2 litros, vazias, ao longo de um ano. O peso corresponde também ao de quase 400 elefantes asiáticos.

A inércia alheia frente a um drama ambiental de poluição instalado em um lindo cenário motivou Andrea a planejar uma performance artística em defesa da Pampulha. A compatriota Yesica Meneses, de Bogotá, também intercambista de artes visuais da UFMG, foi a primeira a tomar conhecimento dos planos da barranquillera.

“Vou fazer um vestido de lixo e andar por aí pela lagoa. Por que não é possível que as pessoas não entendam que essa lagoa está cheirando mal. Como as pessoas que andam por ali não pensam nas consequências disso no próprio corpo, refletido ali? Porque isso está afetando o meio ambiente.”

Começava, então, quatro meses atrás, toda a preparação para o trabalho intitulado “Nossa Senhora”, no qual Andrea daria uma volta completa pela lagoa no dia 11 de dezembro passado, em um verdadeiro ritual de sacrifício, caminhando descalça por seis horas com um vestido com mais de 20 quilos de peso.

Na segunda parte desta reportagem, que vai ao ar no Viva Pampulha na próxima semana, você vai conhecer um pouco mais sobre a artista, sobre a preparação para a performance e como foi a já emblemática procissão em torno da Lagoa da Pampulha.

Na segunda parte da série "Nossa Senhora", você vai saber mais sobre Andrea e a performance em defesa da Pampulha
Na segunda parte da série "Nossa Senhora", você vai saber mais sobre Andrea e a performance em defesa da Pampulha
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