Odisséia no tempo

Às margens da Lagoa da Pampulha, com um telhado em estilo “asa de borboleta” e planos inclinados, um imóvel configura tipologia característica da arquitetura brasileira do modernismo, da década de 1940. Por detrás desta obra prima, não poderia haver outro nome, senão o de um dos mais importantes arquitetos da história: Oscar Niemeyer (1907-2012).

Trata-se da Casa Kubitschek. Construído em 1943, o imóvel foi projetado por Niemeyer para ser a casa de campo do então prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek. A casa reúne características universais da linguagem modernista e particularidades que a identificam, conferem-lhe singularidade e revelam a expressão de pessoal de Niemeyer, características estas que são comuns a todas as obras do conjunto da Pampulha.

Concebida como casa de campo, como todas as edificações que foram projetadas para a Pampulha na década de 40, esta residência contém espaços especializados de lazer, como a sala de jogos, piscina, vestiário. Na frente e nos fundos é possível admirar os jardins projetados pelo paisagista Roberto Burle Marx (1909-1994). É uma casa para receber, com um amplo setor social e um bem resguardado setor íntimo, diferenciação exteriorizada na forma.

Todo este espaço encontra-se aberto ao público. Transformado em 2013 no Museu Casa Kubitschek, o equipamento cultural é dedicado a contar a história de uma casa modernista por meio de espacializações, objetos e estímulos sensoriais. A ideia é ampliar a experiência do visitante em relação aos modos de habitar dos anos 1940, 1950 e 1960, período singular para consolidação do pensamento modernista em Minas Gerais, e suas manifestações na arquitetura, no urbanismo, no paisagismo e nas artes.

Área de fundos da Casa Kubitschek: curvas de Niemeyer sempre presentes
Área de fundos da Casa Kubitschek: curvas de Niemeyer sempre presentes

Os personagens importantes que estão cravados na história da casa também ganham destaque no local. “O Museu hoje representa um importante papel nas iniciativas de pesquisa, preservação e difusão da história e da memória individual e coletiva, relativas ao desenvolvimento da região da Pampulha, e sua paisagem cultural, e também voltada para as questões da moradia e design modernos, que são explorados através de seus projetos de educação para o patrimônio cultural e paisagístico”, afirma Janaína França, gestora do Museu Casa Kubitschek.

Para o diretor do Conjunto Moderno da Pampulha, Gustavo Mendicino, a Casa Kubitschek reflete a diversidade cultural encontrada na região. “O Conjunto Moderno da Pampulha é diverso em sua essência, contempla equipamentos culturais com características variadas e que se completam num sentido de circuito de cultura, esportes, turismo e lazer, e a Casa Kubitschek trouxe à região uma nova forma de convivência com esse patrimônio, por ser um museu casa, onde o visitante entra em contato com o modo de vida de décadas passadas e revive desde o momento de criação da Pampulha até os dias atuais”, completa.

Território da Modernidade

O Museu Casa Kubitschek conta atualmente com duas exposições. As mostras pretendem levar o visitante a experimentar aquele movimento cultural que deixou marcas profundas no modo de ser local. A mostra “Casa Kubitschek: uma invenção modernista do morar”, com curadoria de Denise Bahia e Mariana Brandão, apresenta em sua narrativa dois eixos principais que se interpenetram: um referente à história e outro que remete à memória.

Sala em dois níveis na Casa JK
Sala em dois níveis na Casa JK
Sala de estar com móveis de época
Sala de estar com móveis de época

A proposta é de uma “casa museu”, com um percurso que parte da referência histórica do ambiente político e cultural em que surge o modernismo e, no qual, a Casa Kubitschek foi criada. História e memória seguem referenciadas em todo o percurso expositivo entre móveis, fotografias, vídeos e instalações alusivas à época. A referência à memória de habitantes como Juscelino Kubitschek e, mais recentemente, os amigos Juracy e Joubert Guerra, também integram a proposta curatorial, assim como referências aos artistas que deixaram marcas naquela arquitetura, como Volpi e Paulo Werneck.

A outra exposição, “Pampulha: Território da Modernidade”, com curadoria de Luana Maia, instalada no andar térreo, traz um viés mais histórico. Inicialmente, contextualiza as várias “Pampulhas” no tempo e no espaço. Em seguida, recupera a “Era Kubitschek” em BH e, ainda, o momento de inauguração do complexo arquitetônico em 16 de maio de 1943, materializando os anseios desenvolvimentistas e modernizadores de JK.

A mostra se completa com reminiscências do Arraial de Santo Antônio da Pampulha Velha, surgido em fins do século 19, às margens da atual Avenida Antônio Carlos, próxima ao Aeroporto. Após a construção da capital, imigrantes que não possuíam condições para estabelecerem-se na zona urbana lá se fixaram como moradores. Coube ao casal de portugueses Manoel e Ana Moraes dos Reis, em 1904, fundar a Fazenda Pampulha.

Serviço:
Museu Casa Kubitschek
Avenida Otacílio Negrão de Lima, 4188, Pampulha
Tel.: (31) 3277-1586 / 3277-7993
E-mail: ck.fmc@pbh.gov.br

 

Por Fábio Oliveira – Da Fundação Municipal de Cultura 

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