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Assim como o clássico traçado de ondas é a assinatura do charmoso calçadão de pedras portuguesas de Copacabana, no Rio de Janeiro, os excrementos de capivara estão se tornando a marca registrada da pista de caminhada da orla da Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte. A cruel analogia está longe de ser um exagero.

Somente em um percurso inferior a três quilômetros, entre a Igreja de São Francisco de Assis e o Parque Ecológico, a reportagem do Viva Pampulha verificou pelo menos 20 trechos com ocorrência de monte de fezes na pista de caminhada ou bem próximo dela. Isto sem considerar os incontáveis registros feitos no gramado que margeia a lagoa.

O acúmulo de excrementos de capivara em alguns pontos ao longo dos quase 18 quilômetros de extensão da orla, incluindo trechos de grande movimentação de caminhantes e corredores, é uma rotina já consagrada, até porque a limpeza que é realizada por 30 garis ocorre somente duas vezes por semana, confirma a própria prefeitura.

“Informamos que os resíduos de fezes das capivaras são retirados às segundas e sextas-feiras, ou seja, nos dias em que é executada a varrição na orla da Lagoa da Pampulha. Quando há ações de limpeza específicas, executa-se também a lavação”, respondeu a prefeitura ao Viva Pampulha, em nota, por meio da assessoria de comunicação.

Em outras palavras, de terça a quinta-feira e também aos fins de semana, quando milhares de pessoas frequentam o local, há um verdadeiro festival de fezes pelo caminho na orla da lagoa, cujo espelho d’água se tornou patrimônio cultural da humanidade por dar unidade ao conjunto moderno da Pampulha, composto pela Igrejinha, a Casa do Baile, o Museu de Arte e a sede do Iate Clube.

A periodicidade da limpeza na orla é considerada insuficiente por especialistas, mesmo porque as “caquinhas” dos simpáticos mamíferos roedores não constituem apenas uma mera poluição visual.

“Excremento de qualquer animal, seja doméstico ou silvestre, não deve conviver de forma nenhuma em zonas urbanas. Fezes não combinam com áreas públicas. Em contato com o homem podem ser potencialmente perigosas para a transmissão de doenças”, alerta o biólogo Ricardo Motta, colunista do Viva Pampulha.

Acúmulo de fezes de capivara ao longo da pista na orla é uma rotina: varrição ocorre só duas vezes por semana
Acúmulo de fezes de capivara ao longo da pista na orla é uma rotina: varrição ocorre só duas vezes por semana

Professor de produção e nutrição de animais silvestres na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o médico veterinário Leonardo Bôscoli confirma que os excrementos são, de fato, uma ameaça à saúde dos frequentadores, podendo ser foco de verminoses diversas e até mesmo de bactérias como escherichia coli e salmonella, que provocam distúrbios intestinais.

“Além de visualmente ser algo desagradável, as fezes se tornam um problema quando o contato direto ocorre. Alguma criança pode pegar, mexer, pisar. Outros animais, como os cães, podem cheirar, encostar, lamber. É o suficiente para se contaminar e passar adiante alguma doença”, afirma Bôscoli.

Adriana Lemos, cuidadora de idosos e estudante de técnica em enfermagem, caminha quatro vezes por semana pela orla e conta que as fezes são obstáculos rotineiros: “Eu sou uma pessoa adulta e desvio, mas, e as crianças? Fico preocupado com elas.”

Renato Amaro, técnico em fibra ótica que corre com frequência quase diária pela pista da orla, vai além: “É um problema não só para as crianças, mas também para outros animais. Eu mesmo tenho cachorro e evito ao máximo trazê-lo aqui por causa desses cocôs. Pode comer, pode pisar em cima e pegar alguma doença.”

O biólogo Ricardo Motta lembra que não são somente pessoas e cães que podem ter contato direto com os excrementos das capivaras. “Precisamos considerar que existe ainda o contato dessas fezes com outras pragas urbanas, como ratos, aves, mamíferos e anfíbios”, destaca ele, ressaltando as diversas formas de proliferação de doenças a partir dos resíduos.

Especialistas, moradores da região e frequentadores são unânimes em apontar uma solução.

“A Lagoa da Pampulha é uma interação entre a cidade e a natureza, então sempre vai ter fezes de capivara, patos e outros animais. Como se trata de uma área de lazer frequentada por muita gente, a prefeitura deveria ter um cuidado maior. A solução é varrer todo dia”, define Bôscoli.

O médico veterinário explica ainda que as capivaras são mamíferos metódicos de rotina bem definida. Geralmente, pastam e defecam diariamente entre 17h e 19h e também ao amanhecer, entre 5h e 7h. “Vão defecar sempre perto do mesmo local, pela trilha aonde andam. O ideal, então, é que a limpeza ocorra todo dia, mais no início da manhã”, recomenda ele.

Capivaras têm rotina metódica e defecam sempre perto dos mesmos locais
Capivaras têm rotina metódica e defecam sempre perto dos mesmos locais

Presidente da Associação Pró-Interesses do Bairro Bandeirantes (Apibb), Antônio Lisboa mostra-se revoltado com a manutenção pouco frequente:

“Duas vezes por semana é uma vergonha, é muito pouco. E ainda por cima nem limpam direito. Vejo as pessoas correndo e caminhando entre cocôs todos os dias.”

Já Ricardo Motta faz questão de destacar o aumento do fluxo de pessoas na orla desde julho passado, quando o conjunto moderno da Pampulha recebeu da Unesco o título de patrimônio cultural da humanidade.

“Precisamos estar preparados em termos de logística e limpeza para essa maior concentração de pessoas aqui. Temos de exigir da prefeitura mais atenção com relação a administração desse maior adensamento de pessoas e eventos que ocorrem na represa”, observa o biólogo colunista do Viva Pampulha.

Especialistas e frequentadores entendem que limpeza das fezes na orla deveria ocorrer diariamente
Especialistas e frequentadores entendem que limpeza das fezes na orla deveria ocorrer diariamente


Prefeitura minimiza riscos e garante
não haver registros de contaminação

Em nota enviada por e-mail ao Viva Pampulha pela assessoria de comunicação, a prefeitura afirma primeiramente o seguinte: “Esclarecemos que as fezes destes animais não apresentam grandes riscos para a saúde humana. O risco de contaminação ou transmissão de doenças em razão do contato com as fezes de capivaras é o mesmo em relação às de outras espécies como cães, gatos etc., sendo que apresenta um risco bem menor que o contato com fezes humanas.”

De fato, como explica o médico veterinário Leonardo Bôscoli, os excrementos de capivara não têm potencial maior como foco de doenças, em comparação aos de outros animais, mas o fato é que a reportagem do Viva Pampulha não se deparou com fezes de outros animais ou humanas ao longo do percurso feito pela orla. Foram encontrados apenas resíduos de capivaras, fato que motivou esta reportagem.

Mais adiante na nota de esclarecimento, a prefeitura admite os riscos causados pelas fezes, embora procure relativizá-los: “Caso a pele da pessoa esteja íntegra, sem lesões, o contato não traz nenhum risco ao ser humano. No entanto, é recomendável não levar as mãos à boca e lavá-las bem. Isso porque, como qualquer excremento, as fezes contêm bactérias que podem ser nocivas à saúde, principalmente quando se trata de fezes frescas. Até o momento, não tivemos nenhum registro de reclamação referente a contaminação por contato com fezes de capivaras.”

E a nota prossegue: “Vale ressaltar que, depois de depositadas no solo, as fezes passam por um processo de decomposição e os microorganismos patogênicos ali presentes, expostos ao sol, à chuva e ao processo de fermentação são, na sua maior parte, destruídos”, sustenta a nota.

Fezes não apresentam grandes riscos, sustenta prefeitura
Fezes não apresentam grandes riscos, sustenta prefeitura

Por fim, a prefeitura demonstra que a maior preocupação dela em relação às capivaras na Pampulha diz respeito ao fato de elas serem tradicionais hospedeiras do carrapato Amblyomma sculptum ou carrapato-estrela, causador da febre maculosa.

“Como estratégia de controle, a Prefeitura de Belo Horizonte realiza, três vezes ao ano, na região da orla da Pampulha, a vigilância acarológica, ou seja, monitoramento dos carrapatos presentes no ambiente. Caso seja identificado o carrapato estrela, a rede de monitoramento, vigilância e trabalho educativo é acionada para trabalhar na região, divulgando para a população informações sobre os cuidados para evitar a transmissão da doença”, informa a nota.

Para finalizar, a prefeitura informa que em Belo Horizonte, em 2015, 62 notificações por suspeita de febre maculosa foram investigadas e descartadas. Já neste ano, foram 14 notificações e, até o momento, não há nenhuma confirmação para a doença.

De terça a quinta-feira e aos fins de semana, o "festival de pelotinhas" é algo garantido ao longo da orla
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