Rio Doce, 19 meses depois… Ou seriam 190 anos?

Há menos de duas semanas, eu tive a oportunidade de percorrer boa parte do rio Doce, indo de Ipatinga até Regência, que fica na sua foz, no oceano Atlântico. Três aspectos me impressionaram ao longo desse trajeto.

Em primeiro lugar, você não precisa ser um ecólogo para testemunhar o atual estágio de degradação ambiental que atinge a toda a bacia do rio Doce. Essa é uma tragédia antiga, secular diria eu, e que vem sendo causada pelo mau uso do solo (ex: principalmente a mineração e pecuária, praticadas de modo insustentável), pelos esgotos não tratados vindos das cidades e pelos efluentes de inúmeras indústrias que apenas cumprem (e mal) as mais primárias exigências ambientais.

O segundo aspecto refere-se às marcas deixadas pela tragédia de Mariana/Samarco, ocorrida há 19 meses, e que insistem em permanecer até hoje, seja na paisagem, seja nos seus habitantes, como o senhor Haroldo, na foto abaixo.

O terceiro ponto a destacar refere-se à força da natureza nessa luta contra a insanidade humana. O termo resiliência foi inventado por ecólogos, nos anos 1970, mas agora é de uso universal. Em sua primeira definição, tal conceito referia-se à velocidade segundo a qual um dado ecossistema recupera-se de distúrbios tais como a poluição, queimadas, secas, enchentes etc.

É impressionante ver que, apesar de todas as agressões e da carência crônica de ações concretas de recuperação, o rio Doce sobrevive e chega, em vários momentos da viagem, a impressionar pela sua beleza e imponência.

O agricultor familiar Haroldo, da região de Regência, ao lado de  árvore que ainda exibe a marca da lama de Fundão/Bento Rodrigues
O agricultor familiar Haroldo, da região de Regência, ao lado de árvore que ainda exibe a marca da lama de Fundão/Bento Rodrigues

Pois bem, passo a descrever o que vi nessa verdadeira “caravana das águas” ao longo do rio Doce. Dentre os principais problemas que eu pude observar, inicialmente pela BR 381, destaca-se a turbidez que confere uma coloração avermelhada às águas do rio.

Essa característica pode ser observada em todo o trecho do rio, a partir da entrada do rio do Carmo que traz as águas da Samarco até um pouco antes de Governador Valadares, onde a represa da usina hidroelétrica de Baguari atua como uma verdadeira bacia de depuração das águas do rio. As fotos abaixo ilustram esse efeito depurador dessa represa nas águas do rio.

Turbidez confere coloração avermelhada em trecho do rio Doce
Turbidez confere coloração avermelhada em trecho do rio Doce
Após represa de Baguari, rio Doce fica com a água mais clara
Após represa de Baguari, rio Doce fica com a água mais clara

Continuando a viagem, chegamos a Resplendor, depois de percorrermos a BR 259, passando antes por Galiléia e Conselheiro Pena. Pude observar belos vales e muito verde. O rio Doce, nessa parte, já é bem largo, após receber as águas dos rios Santo Antônio, Suaçuí e Caratinga.

Rio Doce exuberante, próximo à cidade de Resplendor (MG)
Rio Doce exuberante, próximo à cidade de Resplendor (MG)

De um modo geral, o vale do rio nessa parte é mais preservado e menos impactado e a pecuária não causa tantos impactos como aqueles vistos entre Ipatinga e Governador Valadares, onde a paisagem mais parece um deserto marciano, resultado do pastoreio intensivo e não sustentável do gado, bem acima da capacidade de suporte natural.

O fato que mais impressiona, nos arredores de Resplendor, é o tráfego intenso de caminhões-pipa carregando água potável. É impressionante ver essa cena surrealista: caminhões trazendo água para beber de outras partes para a população de Resplendor que vive às margens de um imponente rio Doce.

Perguntei a muita gente de lá. Ninguém confia nessas águas para beber, nem mesmo para tirar a sede dos animais!

Tráfego de caminhões-pipa é intenso na região
Tráfego de caminhões-pipa é intenso na região

De Resplendor, visitamos a usina hidroelétrica de Mascarenhas. Alguns quilômetros rio abaixo, fica Aimorés, uma bela cidade, cortada pela ferrovia Vitória-Minas. Essa cidade faz divisa com Baixo Guandu, essa última, já no estado do Espírito Santo. De Baixo Guandu, fomos a Colatina. Após receber as águas do rio Manhuaçu, o rio Doce, nessa região, atinge a sua maior largura, mas permanece incrivelmente raso. Confira a imagem do referido trecho abaixo.

Rio Doce

Os inúmeros bancos de areia dominam o leito do rio, resultado do enorme assoreamento que o rio sofreu, ao longo das últimas duas décadas. Esse assoreamento é um atestado da ganância e ignorância do homem, que foi capaz de transformar a outrora magnífica Mata Atlântica em dezenas de milhões toneladas de areia que literalmente entupiram a calha central do rio Doce.

É impossível imaginar que esse rio foi um dia navegável entre Colatina e a sua foz, em Regência, como atestam os moradores mais idosos com os quais eu conversei durante essa viagem. E, mais ridículo ainda, participar de reuniões com empresários mineiros que pretendem transformar esse rio em uma hidrovia, como participei recentemente em BH…

Prosseguimos para Linhares, passando antes pelas belíssimas lagoas do distrito lacustre do baixo rio Doce. Lá se encontra-se duas dezenas de belas lagoas, incluindo a Lagoa Juparanã, uma das maiores lagoas naturais do Brasil.

Rio Doce
Rio Doce
Rio Doce
Rio Doce

A dinâmica rio-lago foi afetada pelo desastre de Bento Rodrigues. As fotos acima mostram como as cheias do rio Doce afetam o nível das águas dessas lagoas marginais do rio. A enchente anual, embora possa trazer prejuízos econômicos, tem uma importância fundamental para a estabilidade ecológica tanto do rio quanto das lagoas marginais. Nutrientes e sedimentos são trazidos do rio para as lagoas como também elas servem de berçários para inúmeras espécies de peixes e outros organismos.

O fechamento da ligação entre o rio Doce e as lagoas marginais tem contribuído muito para a diminuição do nível de água, fato agravado pelas inúmeras captações para irrigação e abastecimento público. E, por outro lado, as lagoas isoladas do rio estão seriamente ameaçadas pela proliferação de organismos exóticos, tais como o molusco Corbicula.

Confesso que eu não tinha grandes expectativas em ver algo interessante quando cheguei a Regência. Imaginava uma cidade sem-graça, rodeada de lama por todos os lados e sem maiores atrativos. E qual não foi a minha surpresa! Em primeiro lugar, Regência é uma simpática vila de pescadores e cheia de pousadas confortáveis, com praças arborizadas e povo acolhedor. E a natureza em volta deu um show.

O estuário do rio Doce domina a paisagem. Três ecossistemas razoavelmente bem preservados podem ser visitados com facilidade alugando um barco: praias arenosas onde se praticar o surfe, mangues com uma diversidade surpreendente de plantas e animais e vastas regiões dominadas por florestas galeria ainda bem preservadas (Fotos abaixo).

Rio Doce
Rio Doce
Regencia

Após o impacto inicial, ao ver tanta natureza bonita e exuberante, quando percorremos a paisagem, observando mais detalhadamente e conversando com os moradores, fica muito claro que a tragédia de Mariana trouxe a essa vila graves impactos econômicos, sociais e ambientais.

Em primeiro lugar, a pesca está proibida e dezenas de pescadores agora vivem graças a um auxílio financeiro dado pela Samarco, em uma situação claramente insustentável a longo prazo. Em segundo lugar, o turismo que estava se desenvolvendo muito rapidamente na região praticamente acabou. É triste ver todas aquelas pousadas, restaurantes e bares vazios, com os seus proprietários à porta sem saber como fazer para recuperar seus clientes.

Esses dois fatos são sabidos e descritos na maior parte dos relatórios que li sobre o desastre de Mariana. Entretanto, ainda pude ver uma terceira categoria de impacto: tem muita gente na região que cultiva vários produtos tais como o cacau, a mandioca, o feijão, a banana, entre outros. Essa gente segue usando as planícies alagadas pelo rejeito de Mariana sem nenhum apoio ou informação se há algum perigo de contaminação dos produtos que cultivam (Fotos abaixo).

Rio Doce
Regencia

Graças à força da natureza e menos à vontade do homem em recuperar o rio, o ecossistema se recupera e vai sobrevivendo como pode. Fico muito deprimido ao ver que em meio a tantas crises políticas e econômicas, estamos perdendo um tempo precioso. Só mesmo a força da natureza para recuperar o que ainda resta do rio Doce. Ainda bem que temos essa tal de resiliência para cuidar de nossas águas!

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