Vem correr comigo!

Minha vida é corrida. Um antigo editor meu e meu amigo diria que começar texto com um clichê desse não seria uma boa alternativa literária. Mas se é para falar um pouco da vida, o que seria ela senão um grande clichê? A gente acorda às 5h para tomar café uma hora antes de começar a se exercitar, seguindo à risca as determinações da nutricionista. Vai para a academia às 6h, faz reforço muscular até às 7h e volta para casa para preparar o café da família e o lanche do dia inteiro.

Toma banho, arruma-se para o trabalho, leva o filho mais novo para a casa da avó antes, chega ao gabinete, faz clipping, escreve discurso, redige artigo, monitora redes sociais, liga para a imprensa e finaliza informativo. Busca o filho caçula na casa da avó, volta para casa, prepara o jantar do filho do meio, trata (ele diz assim) do filho mais novo, reserva jantar para o marido e o filho mais velho que estão na faculdade, toma banho e vai dormir às 22h para começar tudo de novo no dia seguinte.

Para suportar esse clichê que é a correria da vida, o que eu resolvi fazer? Correr. Literalmente. Não. Não é loucura. Tomei essa decisão há cerca de dois anos, meses depois de o caçula nascer. Estava com 20kg acima do peso ideal. Os 10 degraus (tá bom, é um pouco mais) que precisava subir para chegar à redação do jornal onde eu trabalhava correspondiam a 10 andares, tamanho era o meu cansaço quando chegava lá.

Uma bailarina clássica e ginasta aventureira não poderia ter chegado naquela situação. A vida parecia bem mais pesada que os meus 78kg distribuídos em 1,58m de altura. Eu precisava emagrecer. Era só nisso que pensava. Foi quando resolvi propor uma pauta sobre corrida de rua para um caderno de saúde e bem-estar. Na ocasião, o esporte havia virado uma febre. E a minha ideia era ir além do contexto emagrecimento. Queria entender o porquê da febre e quais os benefícios dela para esse povo todo.

Durante a apuração, descobri histórias de superação, que me fizeram reavaliar todo o meu conceito de qualidade de vida e o que, de fato, eu queria para a minha vida. Uma das minhas personagens havia superado a perda trágica do pai correndo. Hoje ela é maratonista e uma das pessoas mais alegres que conheço. Uma outra, que já corria, chegou a disputar uma prova em meio ao tratamento de um câncer e foi comemorar a cura na Meia Maratona de Amsterdam. Por fim, o outro venceu a hipertensão e a obesidade depois que começou a correr. Atualmente, ele também se aventura por longas distâncias. E eu lá querendo perder somente alguns quilinhos!

Resolvi correr. Busquei ajuda especializada de uma assessoria e fui. O primeiro dia foi angustiante. Na planilha, caminhadas de 30 minutos intermináveis. Parecia que jamais conseguiria fazer como meus amigos faziam. Na semana seguinte, comecei a trotar e caminhar e, quando menos imaginava, já estava completando os meus primeiros 5km. Seis meses depois, já havia eliminado 18kg. De lá pra cá, fiz algumas provas de 10km, sigo em ritmo intenso de preparação para a minha primeira Volta Internacional da Pampulha e já estou inscrita para a Meia Maratona do Rio. Mas isso é assunto para depois, né.

Para hoje, queria contar o que eu ganhei com a corrida. Mais do que emagrecer, ganhei disposição para manter o meu clichezão do dia a dia. Aquela Ludy mal humorada, que soltava sempre um palavrão quando a pauta caía e totalmente sem paciência não existe mais. Ganhei alegria e felicidade. E acho que o mundo seria bem melhor se todo mundo resolvesse correr! Vem, gente! Vem correr comigo!

468 ad