Vem jogar mais eu

Parto da Igrejinha às 10h em ponto.

Com espírito olímpico, ainda inspirado pela belíssima abertura dos jogos do Rio 2016 no Maracanã, inicio a caminhada achando-me um atleta do nível de Usain Bolt.

Logo vejo um QG de corrida na Nova Praça da Pampulha. Circuito das Estações. Já havia acabado, os corredores estavam ali curtindo o momento e os resquícios da endorfina.

Alguns metros depois, dois branquelos magrelos, com cara de maratonistas do Team GB, passam voando. Incrível.

São atletas olímpicos, constato após pesquisar: Derek e Callum Hawkins.

Esta é a minha caminhada, este é o meu nível, repito para mim mesmo, num truque fajuto de autoajuda.

Daí um cara com uma camisa do Atlético, número 77 nas costas, passa falando com a moça que caminha ao lado dele.

“Parece que… Parece… Parece… Parece…”

Bem. Segui curioso com o assunto, porque agarrou o disco e ficou só no parece. Não sei o que parece, se parece com algo ou com quem.

Parece que não tem importância. Simbora!

Mais adiante, ultrapasso um quarteto de jovens amigas.

“Escuta só… Está vindo uma música de algum lugar”, diz uma delas.

Verdade. Um som ecoa pelo espelho d’água da Lagoa.

Logo mato a charada. Como sei do que se trata, digo a elas:

“Está vindo de lá”, aponto para o outro lado da margem. “Lá do Museu de Arte da Pampulha. Está rolando um bloco de carnaval”.

A trilha de marchinhas do bloco Atrás do Jacaré acompanharia-me por um bom trecho da caminhada.

Uma senhora, em tom formal, passa falando com outras duas mulheres:

“Ela foi tão educada. É tão bom se encontrar com pessoas educadas assim, sabe?”

E o bicho pegando lá no Museu.

“Se você fosse sincera, ô-ô-ô-ô, Aurora!”

Lá vem uma de dupla de coroas pra lá de sessentões. Um é todo grisalho, mas o que veste a camisa azul da Seleção Brasileira tem um cabelo acaju com cara de Grecin 2000 ou coisa pior. Desconfio até ser peruca.

“E o advogado dele está tentando de todas as formas tirá-lo do Moro”, diz o de acaju ou peruca.

“Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é…”, mandava ver do outro lado da margem o Atrás do Jacaré.

Vou no embalo da fanfarra.

Daí vem uma dupla de amigos conversando.

“E o mais interessante são os que sabem contar piadas”, diz um.

“É, porque tem gente que estraga a piada”, completa o outro.

Incluo-me no segundo time. Sou péssimo na função.

“Se você pensa que cachaça é água, cachaça não é agua, não”.

E o pau quebrando lá no bloco.

Eu já estava começando a flertar com a endorfina. Daí…

“Rôôô-óóóóóo-arrrrrrrrr…….. Cusp! Rôôô-óóóóóo-arrrrrrrrr…….. Cusp! Rôôô-óóóóóo-arrrrrrrrr…….. Cusp! Rôôô-óóóóóo-arrrrrrrrr…….. Cusp! Rôôô-óóóóóo-arrrrrrrrr…….. Cusp! Rôôô-óóóóóo-arrrrrrrrr…….. Cusp!

Com uma série de escarradas bizarramente cinematográficas, um corredor-cuspidor me ultrapassa.

Creiam, não foi uma cena agradável de se ver nem uma trilha bacana de se ouvir.

Ainda perplexo, fiz o meia-volta volver.

Poxa… Ficou difícil recuperar a vibe.

Caminho com a cabeça vazia por um bom tempo.

Até que ultrapasso uma dupla de mulheres tagarelas.

“O que não faz o demônio, né?”

“É o capeeetaaa!”

“Quando o demônio entra no casamento…”

“É o capeeetaaa…”

Vixe, eita, oxe, nossa…

Vejo a Igrejinha, ufa, amém!

Caminho até a praça Dino Barbieri, atraído por um batuque.

É uma roda de capoeira.

Estão cantando.

“Vem jogar mais eu, vem jogar mais eu…”

Acho melhor mesmo.

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