Você já ouviu falar em impacto femoroacetabular?

Vou falar sobre uma patologia que sempre esteve presente, porém, recentemente, vem ganhando espaço nos congressos e reuniões científicas sobre patologias do quadril. O impacto femoroacetabular é uma importante causa de dor e principalmente de artrose no quadril, porém não é uma patologia fácil de ser diagnosticada. É uma causa de dor em atletas e indicação de tratamento cirúrgico em atletas de alta performance. Só para lembrar, o acetábulo é a cavidade onde a cabeça do fêmur se encaixa e se articula, formando, com o fêmur, a articulação do quadril.

A síndrome do impacto femoroacetabular trata-se da doença articular causada pelo impacto entre estruturas ósseas no quadril. São três tipos de lesões:

1) Um prolongamento no final da parte redonda da cabeça do fêmur, na transição entre a cabeça e colo (pescoço) femoral, causando lesão também no acetábulo, chamada de CAME. É mais comum em indivíduos do sexo masculino, praticantes de atividades esportivas, em média entre os 20 e 40 anos.

2) Uma alteração no acetábulo que o torna proeminente, com um colo do fêmur normal, chamada de PINCER.

3) O tipo MISTO, com as duas alterações, sendo esse o mais comum. Existe também um tipo mais raro, que é o DINÂMICO, em um quadril com hipermobilidade articular, causado em momentos de movimentos extremos.

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As principais causas são: alterações no formato do fêmur desde a infância, escorregamento da cabeça do fêmur na infância, alterações angulares após fraturas do fêmur proximal, alterações no formato do acetábulo, excesso de atividades físicas na infância, no período em que os ossos estão esqueleticamente imaturos.

Não se sabe quantas pessoas podem ter o impacto femoroacetabular, porém estima-se que em torno de 15% (estudos internacionais) da população possuem alterações do formato do quadril compatíveis com essa patologia.

Os sintomas do IFA geralmente são: dor na região da virilha, que piora ao girar o quadril; além disso, dor na lateral da coxa, dor irradiada para o joelho, dor ao entrar e sair do carro, dor durante ou após prática esportiva, bursites de repetição, dificuldade de cruzar as pernas, dificuldade de alongamento, dificuldade para iniciar o movimento após certo tempo parado, ou para se levantar de posição sentada.

No IFA, a colisão entre as estruturas anormais vai levando ao destacamento da cartilagem que recobre o acetábulo e à lesão de sua borda, que é o labrum ou lábio acetabular. O destacamento da cartilagem parece um “carpete solto”, e isso é irreversível. Ou seja, uma vez danificada a cartilagem, não há como repará-la ou regenerá-la. Se a lesão se tornar muito avançada, desenvolve-se a artrose coxofemoral. Por isso, o tratamento precoce do impacto sintomático é tão importante.

O diagnóstico geralmente se dá por uma combinação de exame físico e exames de imagem. Existem testes físicos específicos que sugerem essa patologia. A radiografia mostra alterações ósseas anormais na transição entre a parte redonda da cabeça e o colo e esclerose no acetábulo, porém não mostra a lesão cartilaginosa ou do labrum.

A ressonância magnética é o exame de escolha, pois mostra todas as lesões relacionadas, mostra a qualidade da cartilagem, do labrum, e ainda é possível a medida do ângulo alfa, que é um ângulo que auxiliará na definição do tratamento.

Em casos mais específicos, pode-se pedir a artro-ressonância também.
O tratamento pode ser dividido em conservador ou cirúrgico. O tratamento conservador está indicado em casos de deformidade leve ou mínima, em estágios iniciais dos sintomas e envolve uma mudança da rotina diária, evitando atividades que causam sintomas. Essa pode não ser uma opção viável para pacientes jovens e ativos. Além disso, o uso de anti-inflamatórios, medicamentos para artrose, analgésicos e fisioterapia.

Em casos de deformidade maior ou pacientes mais sintomáticos, o tratamento desta patologia visa corrigir a anormalidade óssea causadora do impacto, assim como a lesão do lábrum, podendo ser a cirurgia realizada por Videoartroscopia. Esse método é de uso crescente, com índices de sucesso que variam de 67% a 90%. O cirurgião utiliza uma micro-câmera, para ver dentro do quadril. Durante a artroscopia, é possível reparar ou limpar danos da cartilagem articular e do lábrum, com utilização até de parafusos-âncora. Ele pode corrigir o impacto femoroacetabular aparando a borda óssea do acetábulo e também esculpindo a cabeça femoral para que essa volte a ter o formato esférico normal.

Vale ressaltar que o tratamento cirúrgico não evita a progressão da artrose, porém pode retardar essa progressão e dar uma sobrevida para seu quadril.

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